sexta-feira, 16 de abril de 2010

Psicólogos no front da tragédia


Tão importante quanto o socorro médico e o suporte com alimentos e abrigo, é a ajuda psicológica às vítimas de crises humanitárias. É preciso reorganizar a comunidade para que a vida volte ao normal e atender pacientes com estresse pós-traumático
A tragédia humanitária decorrente do terremoto com cerca de 7 graus de magnitude na escala Richter, que atingiu o Haiti, no Caribe, em 12 de janeiro deste ano, resultando em um número estimado de mais de 200 mil mortos, 50 mil órfãos e uma quantidade incontável de feridos e desabrigados, o que abre uma questão importante, tanto para as vítimas como para os profissionais que atuam na assistência dessas pessoas: o que situações como esta, de extremo impacto, provocam em nossa mente? Há tanta dor provocada pela morte de entes queridos, além de perdas materiais e marcas físicas e psicológicas deixadas pela tragédia, que novos cenários surgem para milhares de vidas, que passam a ser divididas entre o período antes e o depois da crise.

Rosaly Ferreira Braga Campanini, psicóloga e pesquisadora do Programa de Atendimento de Pesquisa e Violência da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), explica que, apesar das situações extremas, o ser humano apresenta reações surpreendentes. "Não há dúvidas, entretanto, de que existe um limite para a questão psicológica e que existimos em relação aos outros", afirma.

MISSÃO PROFISSIONAL

A resposta na fase aguda da crise humanitária é a desorientação, segundo explica o psicólogo Márcio Gagliato, mestre em Psicologia Social, que atualmente é coordenador no Brasil da organização Save the Children UK e já participou de várias missões humanitárias no mundo pela Care International. "Algumas bibliografias dizem que as vítimas podem viver naquele momento um deslocamento interno intenso, com perda da esperança e da fé. É o ciclo do trauma, que significa um 'chacoalhão' a uma situação anormal", diz. E parte das intervenções psicológicas nessas situações tem o papel de ajudar na retomada da normalização.

"As pessoas precisam desses primeiros momentos de resgate de suas raízes, de suporte do que é conhecido. O serviço especializado auxilia neste processo. Numa fase posterior, entra o tratamento. É importante que não haja a dor física, justamente para que se permita que o sofrimento seja vivido de maneira digna e, assim, suportado", alerta Gagliato.

O primeiro passo após a tragédia é assegurar uma rede de informações que dê referências às vítimas e aos apoiadores do que realmente está ocorrendo, isso para que tenham esperança e possam se reorganizar.

ESTRUTURA PSÍQUICA

Há pessoas que se fragilizam mais e outras que são mais resistentes diante das crises. "Qualquer pessoa é única, com sua estrutura psíquica. Temos um elenco de respostas a situações ameaçadoras, com mecanismos de defesa, que são naturais, uma energia psíquica", explica Rosaly. À medida que a violência é mais intensa, pode-se dizer que os mecanismos que regulam essas defesas têm dificuldades de manter a integridade. "Nesse ponto, pode estar representado um ponto de ruptura, resultando em quadros psicóticos", diz Rosaly.

O nível psicótico pode ser passageiro. "Os casos mais graves estão relacionados a fatores biológicos, psicossociais e psicológicos. Pode-se dizer que há predisposição e que existem quadros passíveis de desencadear essa situação", afirma a psicóloga da UNIFESP. Como sintomas, a pessoa pode apresentar comportamento de estranhamento de si mesma, irritação, desejo de se isolar e ideias delirantes de perseguição. "Muitas ouvem, por exemplo, ameaças, trovões ou têm 'visões'. Em situações mais graves, podem desenvolver esquizofrenias", afirma Rosaly.

Outra manifestação diante de um enfrentamento de crise humanitária é a desestruturação psíquica. "As pessoas acabam vivenciando, o tempo todo, as cenas do episódio do desastre, acordadas ou por meio de seus sonhos e pesadelos. Mas elas sabem que o fato não está acontecendo", explica a pesquisadora do Programa de Atendimento de Pesquisa e Violência da UNIFESP. O que há em comum tanto no quadro psicótico e na desestruturação psíquica é que o sofrimento intenso ocorre em ambas as situações.

Segundo a psicóloga, o estresse pós-traumático pode ser decorrente desses tipos de manifestações a que se agregam a depressão e o transtorno de pânico. "Por exemplo, o quadro do estresse pós-traumático tem a possibilidade de ocorrer após um mês ao evento de crise, com o indivíduo revivendo intenso sofrimento. Ele passa a não sair mais na rua, não consegue ouvir mais as notícias. Tem medo de que aconteça alguma coisa", diz Rosaly. Isso acarreta prejuízo tanto ao relacionamento interpessoal como ao profissional.

"Depois desse um mês e meio, aproximadamente, esses sintomas progressivamente vão se diluindo. A pessoa pode, em alguns casos, se distanciar dessa situação grave e fazer um esforço para retomar a sua rotina. Mas após meses, diante a uma nova situação de violência, há a possibilidade de desencadear todos os sintomas de uma vez só", alerta Rosaly.

Maiores informações acesse o site: portalcienciaevida.com.br

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