terça-feira, 20 de abril de 2010

Impulsos da Humanidade


A pulsão como um status irrecusável em qualquer reflexão sobre o psíquico e o humano, tanto no consultório quanto na sociedade

Por Cláudio Laks Eizirik

O instigante tema compulsão pode naturalmente ser lido de várias formas, dentre elas uma visão do momento atual cultural, de certa maneira dominado pela pulsão, ou uma alusão aos comportamentos compulsivos que marcam muitas das chamadas "patologias atuais", ou ainda um convite à reflexão sobre o trajeto irrecusável da pulsão, e seu primado na vida psíquica.

Longe de qualquer pretensão a escolher dentre esses ou outros significados. O tema é suficientemente aberto e convida à leitura de cada psicanalista que está desejoso para participar das discussões científicas. Contudo, é importante refletir sobre cada uma dessas possíveis acepções, tendo em vista a riqueza de temas e questões que podem ser propostos, e que têm como fio condutor comum justamente a pulsão.

De qualquer forma, uma das primeiras associações, a palavra compulsão foi um irônico comentário do psicanalista francês, André Green, quando visitou Porto Alegre. Há alguns anos, Green disse que a palavra jouissance (fruição), quis criticar o que lhe parecia o excessivo pendor da psicanálise britânica para a investigação dos estados mentais, em contraposição aos desenvolvimentos metapsicológicos franceses, mais envolvidos com os caminhos da pulsão.

Parece ser uma questão da psicanálise contemporânea, que perpassa suas diferentes latitudes e que vai muito além de mais uma guerra dos cem anos. É difícil integrar razoavelmente teorias tão distintas; os especialistas são tentados a se posicionar num dos dois campos definidos desde a Antiguidade clássica, e nomeados por Freud como a razão e a paixão. No entanto, a experiência clínica e a própria experiência da vida ensinam que o drama da existência humana é muito mais complexo, e não aceita ser reduzido a apenas duas alternativas. Cabe incluir aí toda uma gama de emoções, fantasias e conflitos.

Uma rica amostra dessa complexidade é a fascinante obra do escritor norte-americano, Philip Roth, que nos últimos livros tem examinado a trama das paixões humanas colocando sua lente acurada e penetrante a perscrutar o que move corpos e mentes face às realidades da velhice e da morte.

Cláudio Laks Eizirik é psiquiatra, membro da Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi) e presidente da Associação Psicanalítica Internacional

Tanto em O animal agonizante, Gente comum, como em Fantasma sai de cena, Roth descreve inúmeras situações em que seus personagens se debatem com o declínio físico e as mazelas da velhice, ao mesmo tempo que a vida pulsional continua cobrando sua presença e a perspectiva da morte, ameaçadoramente, se avizinha. A aposta de Roth, que sempre teve a sexualidade como um dos motores de toda sua obra ficcional, é que, também nessa etapa, a mesma força pulsional estimula a criatividade, força o diálogo com o passado e contribui para o cenário da dimensão trágica da vida.

Na leitura desses últimos livros, Roth oferece também a oportunidade de observar em que medida a literatura e outras expressões artísticas podem contribuir para a compreensão e o acompanhamento das questões humanas, tanto em seus aspectos evolutivos normais quanto os psicopatológicos. A psicanálise surgiu, na mente de Freud, tomando da cultura clássica e daquela produzida na Viena fin-de-siècle as bases para compreender o psiquismo humano, tanto quanto os dados provenientes da ciência, seja ela fisiológica, médica ou psiquiátrica.

Da mesma forma como Freud bebeu nessa fonte inesgotável, para construir seu modelo de funcionamento mental, dentro do paradigma da modernidade, a apreensão desse atual momento cultural, tão bem caracterizado pelo sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, como "a modernidade líquida", tem muito a ganhar de obras literárias como a de Roth, dentre outros autores contemporâneos, porque ele permite acompanhar os caminhos e descaminhos da pulsão.

Se Freud e seus neuróticos tinham de haver-se com a repressão, o homem contemporâneo precisa enfrentar a desmentida. No campo da patologia encontram-se expressões como os estados fronteiriços, a perversão e os quadros psicossomáticos. Esse ser contemporâneo percorre, desta forma, os livros de Roth, além dos consultórios.

Outra dimensão a requerer estudo e reexame é uma postura crítica à psicanálise kleiniana com um certo desgosto em muitos quadrantes e que tem possivelmente mais relação com uma certa leitura da psicoterapeuta austríaca, Melaine Klein, nesse período histórico, que coincidiu com ditaduras latino-americanas, em que uma atitude superegóica, crítica, quase moralista, buscadora da culpa e da irrecusável reparação dominava muitas análises.

"É IMPORTANTE NÃO DESCUIDAR DA PRESENÇA E DA PROEMINÊNCIA DA PULSÃO E DE SUAS EXPRESSÕES NA VIDA MENTAL"


Roth aponta, em sua ficção, como a literatura e outras expressões artísticas podem contribuir para a compreensão e o acompanhamento das questões humanas
Nessa visão, o pólo pulsional e suas expressões poderiam ser percebidos como a fonte do sofrimento psíquico. Nem parece ter sido assim que Klein pensava e analisava, nem é assim que se observa o trabalho criativo de seus atuais seguidores. Alguns dos elementos propostos por Klein como a análise da transferência, em especial a negativa, a oscilação entre as posições esquizo-paranóide e depressiva, o exame dos estratos mentais mais primitivos, o trabalho com a inveja e as distintas defesas contra ela parecem, às vezes, ter sido substituídos por um certo intersubjetivismo. O analista se move com excessiva cautela, deixando de abordar, muitas vezes, por exemplo, a sexualidade e o cortejo das fantasias edípicas que acompanham todo o ciclo vital.

A referência não é ao notável desenvolvimento que permite hoje trabalhar em contato emocional mais próximo com os pacientes. Graças ao trabalho de Klein, Wilfred Bion, Winnicott, Racker, Baranger, entre outros, o destaque se dá pela importância de não descuidar da presença e da proeminência da pulsão.

Fonte: Psiqué, Ciência e Vida

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