domingo, 30 de maio de 2010

Quando o professor se transforma em ídolo das crianças


Seu filho fala dele com carinho e admiração e vive querendo lhe dar presentinhos. Essa adoração pelo professor ou professora chega a deixar muitas mães enciumadas, mas é esperada nessa idade e muito produtiva. “O aluno enxerga o professor como um ídolo, a pessoa que satisfaz sua necessidade e sede de conhecimento”, diz a psicopedagoga Neide Noffs, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Identificação

Esse encantamento é reflexo de um comportamento natural no processo de desenvolvimento. “A criança identifica-se com pessoas com as quais convive e que têm para ela um significado especial. Passa, então, a imitá-las. Assim ocorre a passagem do conhecimento de um indivíduo para o outro”, observa Maria Luiza Teixeira, professora de psicologia do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).


Ness fase, a criança exercita o pensamento lógico, faz ligação entre uma idéia e outra e já tem maior noção da realidade. É quando ela desata a querer saber o porquê de tudo. Em casa, nem sempre os pais têm tempo, paciência e mesmo conhecimento para chegar até o último “por quê?” do filho com uma resposta na ponta da língua.

Felizmente para o pequeno curioso existe o professor, que foi preparado e dispõe de instrumentos para auxiliá-lo a mergulhar com toda a vontade nesse sedutor mundo de novas coisas a descobrir e conhecer. “Ele se apaixona por aquele professor que sabe se mostrar disponível e atento para suas exigências”, diz Neide. Portanto, se seu filho está encantado com o mestre, festeje: é sinal de que ele está muito estimulado a aprender.

Sem ciúme

E você não precisa ficar enciumada. “A identificação é um processo amplo. Há lugar para os pais, os professores, os ídolos, os amigos e muitas outras pessoas que conviverão com a criança por sua vida afora”, diz Maria Luiza. Os pais são as primeiras figuras significativas para a criança e sempre serão uma referência, mesmo que, em alguns momentos, tenham a impressão de que foram substituídos.

Hora da separação

O primeiro professor a gente nunca esquece. Mas progredir na escola implica trocá-lo por outros mestres. Esse momento pode ser de muita tristeza para a criança, pois, daqui em diante, o aprendizado escolar não estará mais centrado na ligação afetiva com uma só pessoa. “Os pais devem assegurar à criança que ela irá encontrar outros professores tão legais quanto esse”, diz a psicóloga Maria Luiza Teixeira. Desta forma, ela se sentirá segura para se identificar com outras figuras igualmente importantes no seu processo de desenvolvimento.

Fonte: CRESCER

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Educação Inclusiva - Percepções



As crianças e demais pessoas envolvidas, refletem a postura, olhar, a ação do mediador que está com elas.

O exemplo disso, são os feedbacks que as próprias crianças nos fornecem no dia a dia, inclusive pontuando nossas falhas ou nos chamando atenção para o que não tínhamos observado, basta apenas escutá-los...

Cabe ao profissional , sustentar um novo olhar, que reconheça as crianças como sujeitos, especialmente as com deficiências, deslocando-as do lugar onde o discurso médico e parental as situou.




Algumas observações:

Na minha experiência, muitas crianças com deficiência numa sala, realmente dificultou o desenvolvimento trabalho com maior qualidade, devido a sobrecarga de diversidades nas demandas.

Talvez com um número menor , o trabalho poderia ter sido desenvolvido de forma diferenciada, pois materiais para estimulação específicos, se não forem adquiridos, necessitam de tempo significativo para serem elaborados.

Continuo questionando a inclusão em período integral, para algumas crianças que necessitam de apoio Pervasivo ou Extensivo em várias áreas.

Penso que não existe nenhum trabalho técnico , profissional ou individual, que substitua a riqueza da convivência entre todas as crianças.

Mas considero muito importante que exista um programa paralelo que possa favorecer crianças com necessidades muito específicas ou que apresentem muita dificuldade nos relacionamentos interpessoais.

Precisamos descartar um certo narcisismo profissional que ao invés de promover a inclusão, poderá estar mais próximo de um ato de agressão.

Percebi, na minha experiência, que em vários momentos, algumas crianças , com necessidades de apoio Pervasivos, pareciam estar muito bem no grupo, especialmente durante a recreação, atividades com músicas, artes, sala de estimulação, ocasionalmente durante o horário de refeições.

Em outros momentos como por exemplo os que exigem um desempenho intelectual mais significativo, observo que estão completamente excluídas ou mesmo desconectadas com o meio.

E se “ não podem interagir, compartilhar, aprender e competir lealmente com seus pares, crescerão com a auto - imagem de ser sempre o último, o que não pode, o perdedor...evitemos assim que os pequenos com deficiências mais fortemente afetados, se deparem cotidianamente com situações que não podem resolver” ( Educação Inclusiva do Projeto Estadual de Mudança de Sistemas para a Educação Inclusiva da Louisiana.95)

Se por um lado, observo um “furor reabilitador”, agora voltado para a inclusão. ”A aparição da impossibilidade de renúncia, em nosso meio de trabalho. As exigências de perfeccionismo que incrementam as dos pais. Assinalamos que o risco de desconhecer e não se encarregar dessas verdades, entre as quais transita nossa ação , equivale a condenar - se a uma mecânica amestradora.” (Alfredo Jerusalinsky .1988 pág. 195)

Por outro , observo muitas escolas e profissionais da área de saúde mental e Cia, congelados frente a possibilidade da simples reflexão sobre o assunto, sendo que é um direito não questionável. Com o discurso sempre impecável repleto de “mas”, que sustente a co-dependência real que existe nessa área, quando na realidade , não estão preocupados com as crianças, mas temem perder a função, seu emprego, sua identidade profissional ,rever posturas e paradigmas internos...

Isso é difícil? realmente é... é um processo que exige mudanças profundas, grandes transformações...

Pelo menos hoje, já temos os dois lados, a questão é encontrar o equilíbrio entre eles...

Ainda bem , que algumas escolas já conseguem perceber a possibilidade que a inclusão oferece de ampliar o campo de atuação...

Alguns professores,

tanto os de classes comuns, como os das " especiais" percebem que estarão crescendo e se desenvolvendo com essa nova proposta. O professor da sala especial será o consultor de todas as outras salas, seu campo de trabalho irá ampliar!

Teremos apenas especialistas em relacionamentos humanos, em pessoas.

O mesmo ocorre em empresas, com a contratação , de pessoas com deficiência em seu quadro de funcionários. Todos ganham com isso!

A realidade no futuro é um comprometimento da sociedade civil - Empresas Socialmente Responsáveis"( revista Exame/98) Empresas admitindo pessoas com deficiência pelo seu valor e produtividade, não por causa de leis.. que podem gerar mais exclusão nos ambientes...

Consumidores mais exigentes, escolhendo empresas, que tem efetivamente ações, no dia a dia de cidadania corporativa e crescimento social de nosso país.

A partir daí, outros caminhos poderão ser possíveis, tanto em relação aos pais, escolas, como os futuros reflexos na comunidade.

Vale um Alerta !

O que me preocupa muito nesse percurso , são algumas frases como “ para com os estudantes com distúrbios de comportamento o professor deverá -> Aplicar técnicas de modificação de comportamento, ignorar comportamentos inadequados, focalizar os pontos bons e elogiá-los...” que apesar de ser uma tentativa na busca de soluções para os conflitos dos profissionais perante a inclusão, pode desconsiderar o próprio sujeito, pois já não se acha presente a partir delas. Não existe regras, pois cada sujeito é único, singular...

O perigo existe pois são “...técnicas que constituem verdadeiras resistências serviço da evitação do contato do profissional com o real disforme, lento... ou imóvel de sua prática...

Ou não se suscita em nós, como nos pais, a fronteira com o sub-humano? Também se mobilizam essas imagens em nós... Não estamos isentos do desgosto e da angustia, na aproximação com as crianças. Por isso desconfiamos do altruísmo... ”(Alfredo Jerusalinsky .1988 pág. 195)

Os sentimentos precisam ser conversados, os pontos fortes aprimorados e os fracos observados e revertidos como desafios, oportunidades de melhoria.

Os relacionamentos necessitam ser trabalhados e não ignorados, pois como pode uma pessoa aprimorar sua capacidade de se relacionar com o outro, se não tiver feedbacks do meio?

Por isso, eu pergunto:

ESTAMOS REALMENTE ESCUTANDO AS CRIANÇAS ?

Por isso o trabalho profissional, precisa estar à serviço para que a convivência entre as crianças, seja um processo produtivo, positivo e saudável para todos .

ACREDITE : É POSSÍVEL !



Boa sorte e Sucesso!

Educação Inclusiva - Hipótese após quatro anos...


Itamar Marcondes Farah

Quase todas as crianças descobrem capacidades para atos solidários e cooperativos desde cedo, tornando - se mais compreensivas e tolerantes nas relações com o outro, aprimorando a empatia.

As crianças desenvolvem melhor auto-percepção, verbalizam seus limites, da mesma forma que reconhecem capacidades e progressos em si mesmas e nos colegas, especialmente com deficiência.

Todos do grupo, saem ganhando e se beneficiam com uma equipe multidisciplinar e os materiais de estimulação sensorial e não somente as crianças com deficiências.

Comparando desenhos da mesma criança após um ano, observa-se que a expressão gráfica está mais aprimorada e criativa, demonstrando melhor auto-percepção.

Não se pode pré - determinar a limitação física ou intelectual em sua extensão nas crianças , especialmente as que necessitam de Apoio Pervasivo em todas as áreas. Elas muitas vezes nos surpreendem, com suas conquistas e com a compreensão de fatos e situações. Por isso o cuidado absoluto, em respeitar sempre a criança que está diante dos nossos olhos, perguntando a ela o que quer.

É infinitamente mais fácil trabalhar a inclusão com crianças pequenas e suas famílias, que estão mais receptivas e com padrões de relações menos cristalizados.

O ambiente altamente estimulador, rico , alegre e continente que as crianças normais proporcionam, colaboram efetivamente para o desenvolvimento e ajustamento social de crianças com deficiências. O mediador que tem oportunidade de vivenciar isso, não consegue mais visualizar um futuro para escolas segregadas.

Crianças que viveram um tempo nesse ambiente e depois passam para outro (só normais ou só segregados), infelizmente não terão uma oportunidade contínua de conviver com a diversidade de forma geral, interrompendo o processo. Ao meu ver, uma interrupção lamentável para todos...

Famílias de classe baixa também apresentam preconceitos só que distorcidos em função da falta de informação. A diferença é que estão mais disponíveis para o trabalho , menos coladas a discursos técnicos de técnicos e a supostos padrões idealizados de convívio.

Observa-se que tanto as famílias como as crianças com deficiências apresentam dificuldade em serem tratados com direitos e deveres iguais aos outros. Os prováveis ganhos secundários, por ser deficiente, observados na própria história de vida dessas famílias e crianças, são peculiares na situação da inclusão. O profissional precisa estar a tento a esse fato e colaborar nesse processo de transição.

É vital o trabalho de apoio, com treinamentos e desenvolvimento, com as equipes envolvidas. O papel e olhar do mediador, seja as ADIs ou outro profissional é fundamental para o desenvolvimento de um processo de inclusão pleno.

O mesmo ocorre com as famílias que necessitam ser recicladas periodicamente, onde o foco está na importância da parceria de atitudes e posturas, em casa no cotidiano .As famílias precisam ser sensibilizadas para um olhar diferente, o olhar de possibilidades.

Acredito que essas crianças, serão pessoas melhores e se tiverem oportunidade,

profissionais diferenciados no futuro...

Imaginem , por exemplo, um arquiteto ou engenheiro, que estudou desde pequeno com crianças com deficiências?

Eles conviveram , tiveram a vivência, não apenas leram livros...




Educação Inclusiva



Eu sou a Nina !


No livro "Somos Todos Iguais?", estaremos conversando sobre...

Nossas Diferenças

Nossos Sentimentos

Inclusão
Itamar Farah

Aqui você encontrará na íntegra, o artigo:

Inclusão - Como é isso na prática? Grupos terapêuticos, uma estratégia de suporte para esse processo.

Publicado na revista Temas Sobre Desenvolvimento - Editora Memnon - 1997.Esse estudo, deu origem aos livros " Uma creche Em Busca de Inclusão" (1998) & "Somos Todos Iguais?"(1998) publicados posteriormente.

projeto

conteúdo

Itamar Marcondes Farah

Introdução

Em 1994,iniciei um trabalho no Coepe - Naia , creche conveniada com a PMSP . Meu primeiro grande desafio surgiu a partir da demanda de um projeto de inclusão que nas palavras de Ture Jonsson seria o direito da cidadania de crianças com deficiências frequentarem a mesma classe com seus pares normais

No início, senti a necessidade de buscar mais informações e materiais que pudessem me trazer alguma luz na realização desse trabalho.

Após minhas pesquisas ,

pude verificar que o encontrado estava aquém de minha expectativa inicial. O que encontrei em sua maioria tratava-se de textos técnicos , relatos, jornais ou mesmo livros infantis que apresentavam como idéia básica uma tentativa de esclarecer crianças normais sobre como seriam crianças com deficiências.

O que eu imaginava para este projeto, não era criar somente uma situação de esclarecimento sobre as deficiências para todas as crianças, mas sim pensar na inclusão como algo que passasse de uma maneira mais direta pela vivência de situações, onde pudesse haver uma mobilização afetiva frente a situação, transformações de posturas, procurando desenvolver níveis diferenciados que pudessem ir além da informação.


Os grupos os quais trabalhei, se apresentavam bastante diversificados, tanto quanto a idade, como em relação ao tipo de deficiências. Minha proposta inicial foi a criação do que denominei "Grupinho Terapêutico", que a meu ver seria uma das estratégias de suporte para o processo ao qual eu me propunha. Assim, parti de alguns temas iniciais, para que fossem desenvolvidos.

O objetivo é relatar as observações realizadas em relação as crianças, mas de forma específica na área clínica. Realmente, é na convivência do dia a dia que se torna possível perceber de que maneira lidamos com a inclusão e como as crianças se sentem em relação a essa questão.


Onde Encontrar: Creche Coepe - Centro de Orientação e Encaminhamento ao Pequeno Deficiente / Naia - Núcleo Assistencial Irmão Alfredo - Entidade Mantenedora - Obra Beneficente

Rua Ribeiro do Vale, 120 - Brooklim São Paulo /SP

Fone: (011) 533-7922/543.3286

terça-feira, 25 de maio de 2010

Relacionamentos Virtuais


Simone Mello Suruagy Psicóloga

As coisas andam muito confusas, no campo dos relacionamentos afetivos.

Longe ficou o tempo no qual as famílias decidiam quem podia casar, e com quem. Isso facilitava o problema, pois, se o casamento dava certo, todos se beneficiavam. Se dava errado, havia uma distribuição eqüitativa de culpas: o casal culpava a família e vice-versa.

De qualquer forma, tinham que viver juntos até que a morte os separasse, fossem felizes ou não.

Também ficou para trás o tempo das histórias da Carochinha, onde, após muitos sofrimentos, a Branca de Neve casava e ia ser feliz para sempre. O casamento era uma coroação, uma meta, sem a qual se era discriminado socialmente. O destino traçado de toda moça era casar e ter filhos e o de todo homem, manter a família, o nome e a herança.

Você podia ser viúvo ou viúva, solteirão, jamais, pois isso seria a prova de que algo muito errado havia em sua vida.

Em toda a família, haviam algumas solteironas, as "titias", sempre discretamente ridicularizadas, mas muito úteis para o andamento de tudo. Elas cuidavam da casa, ajudavam com as crianças, faziam promessas para pagar os pecados de todos, e, na velhice dos pais, eram as responsáveis pelos cuidados e doenças e também por fechar-lhes os olhos, quando morriam.

Eram poderosas, sim, e o poder era proporcional à utilidade. Isso todos sabiam e todos usavam, especialmente elas.

O poder dos laços de família, a manutenção dos bens, a autoridade patriarcal, tudo isso tinha um cunho de estabilidade, de permanência inquestionável. E ai de quem discordasse! Romeu e Julieta que o digam!

Por mais distantes que essas lembranças nos pareçam hoje, pertencem a um tempo que durou muito e acabou há pouco.

Depois, veio o tumulto. A roda começou a rodar depressa demais e tudo, literalmente, virou de pernas para o ar.

Inúmeras mulheres hoje vivem sós e jogam as suas energias no trabalho. Virgindade não é mais um tabu, pelo contrário. Ter filhos é uma opção que independe de casamento ou mesmo de relacionamento sexual. Viajam, se divertem, sem que a companhia masculina seja indispensável ou necessária. Mesmo as que nutrem o desejo não satisfeito de ter um parceiro fixo, racionalizam a solidão, dizendo que não encontram namorado porque os homens não querem compromisso, só pensam em sexo ou em outros homens, etc.

Hoje, muitos homens continuam morando com os pais a despeito de serem adultos e bem sucedidos profissionalmente. Não há nada que os estigmatize ou diminua neste fato. É uma opção como outra qualquer, e, se todos concordam, por que não? Aí, mantêm relações afetivas superficiais e dispersas e fogem à qualquer tentativa de aprofundamento na relação, como se tivessem medo ou vergonha. Escolher uma é como se fosse abandonar a liberdade de ter todas e, sobretudo, perder aquele status de eterno adolescente.

Enfim, casamento não é mais um objetivo, e sim algo para o qual todos encontraram os seus derivativos. E, quando ele é inevitável, esta decisão vem acompanhada de dúvidas e questionamentos de toda ordem.

É como se o laço mais importante para manter o compromisso fosse a dependência, sobretudo a econômica. Como essa dependência não existe mais, os laços vão-se afrouxando até romperem de vez.

Cada uma dessas transformações trouxe a sua contrapartida no relacionamento.

Bem, mas também muitos casam e se defrontam com uma realidade de competições, dentro e fora do casal . Os parâmetros familiares se perderam, os pais não sabem mais o que ensinar os filhos em termos de regras morais, o impacto dos meios de comunicação é enorme, eles , sim, ditam as regras.

Os filhos, não tendo limites em casa, continuam sem limites fora ou elaboram com o grupo um código próprio e mutante de valores. Há um enorme avanço tecnológico trazendo uma avalanche de informações que não pode ser digerida pelo próprio volume, mas que todos buscam sofregamente engolir, porque ninguém pode passar por desinformado...É neste mesmo "meio tecnológico" que surge um novo tipo de relação, que é a relação virtual. Aquela que é mas não é, ou é exatamente porque não é, desde que somente a realidade a ameaça.

Vamos ilustrar com alguns casos.

Marta , solteira, 36 anos, era uma líder. No trabalho, ressaltavam o seu raciocínio lógico, o seu preparo técnico, a sua capacidade de estar sempre a frente dos desafios. Com os amigos, era a "mãe de todos", a que congregava, decidia, de quem todos dependiam. Morava só e mantinha com a família laços aparentemente distanciados. O relacionamento dos pais sempre fora caótico, e a decisão de sair daquele convívio foi tomada com alívio.

Namorados, não tinha nunca. Mantinha alguns casos, muito esporádicos, sempre insatisfatórios. Um dia descobriu, nos Chats da Internet , uma pessoa que em tudo correspondia ao se ideal de par perfeito : brilhante, disponível, capaz de manter um diálogo fascinante sobre qualquer assunto.

Passaram a namorar e ela concentrou ali o seu tempo livre. Descuidou-se dos amigos, fez dieta.

Naquele espaço virtual, ela era outra. Apaixonada, sem bloqueios, capaz de fazer planos e convencer a sí própria e ao parceiro internauta que iria cumpri-los. Até que um dia o rapaz, que morava em outro país, declarou que iria conhecê-la pessoalmente.

Todos os medos vieram à tona. Sim, ele veio ao Brasil, mas ela havia arranjado uma viagem de trabalho intransferível. Jamais se conheceram. O grupo, que andava à deriva desde que o romance iniciou, acolheu-a de braços abertos.

Rodolfo era casado há muitos anos. Tinha filhos e netos. Próspero homem de negócios, foi acometido de doença grave e incurável, mas que não o impedia de trabalhar e de estar freqüentemente fora de casa a negócios. Sua esposa não acompanhou o seu crescimento intelectual. Ele conjeturava que , não fosse viajar tanto, não agüentaria aquela mulher que parou no tempo e no espaço, e que só pensava em casa e família.

Bem, o que fazia ele para preencher as longas noites de solidão, enquanto viajava?

Dormir, a insônia não deixava. Procurar mulheres? Tentara isso algumas vezes, mas não dera certo, ele se sentia desconfortável, desconfiado, achava que elas só queriam o seu dinheiro. Foi nesse ponto que entrou a Internet.

As noites passaram a ter outro sabor. Conversava com mulheres de todos os lugares, brilhantes, e a todas encantava com a sua forma firme e romântica de falar. Até certo ponto era sincero, pois contava da doença, dos negócios, da família, da falta de sintonia com a esposa.. E deixava sempre, no ar, uma esperança, uma insinuação de que sua vida tomaria novo rumo, já que havia encontrado, naquele contato, a afinidade que não conhecia. Era um "grande amigo' de todas, ouvia-lhes com atenção, aconselhava, mas jamais chegou a conhecer nenhuma. Quando as coisas tomavam um rumo mais perigoso, era simples, a doença piorara, a família estava com problemas, os negócios...

Mary estava casada há 12 anos . Não tinha filhos, nem faziam falta. Dedicava-se ao trabalho com verdadeiro fervor. Em contrapartida, era admirada e requisitada. O casamento era morno. O marido era um profissional de um renome conseguido às custas de muito esforço. Os fins de semana, as noites, eram dedicados ao trabalho. Era hipertenso e não ligava para a saúde. Haviam adquirido um hábito : após o jantar, ela ia ler ou ver televisão , até adormecer. Ele continuava o trabalho, pela noite a dentro, sem hora para parar. Assim, monotonamente, todos os dias de todos aqueles anos. O relacionamento sexual também era morno, quando muito. Amigos, poucos. Uma vida morna.

Foi quando Mary descobriu que podia, ficando em casa, ter noites muito calientes.

A Internet ocupou todos os espaços: foi-se a televisão, a leitura, a monotonia. Agora, o marido ia dormir alta madrugada e ela continuava, febrilmente, alimentando vários romances ao mesmo tempo. Aquela atividade foi tomando conta de sua vida. No trabalho era assaltada pelo desejo de chegar logo, logo, para ligar o micro e ali ficar, fascinada. Naqueles momentos, ela era tudo o que sua imaginação podia conceber e ela jamais ousara realizar.

A dinâmica do casal mudou. Percebendo que algo estranho estava acontecendo, o marido procurou alterar os horários, conversar, e só conseguiu discussões. Em determinadas horas, ela era tomada de culpa, estava traindo! Chorava, emagrecia, mas não largava o hábito. Até que , um dia, não agüentou a culpa e contou ao marido. Depois de uma tempestade, onde ele também mostrou um lado desconhecido e violento de sua personalidade, tudo voltou ao antigo equilíbrio, com uma diferença: ele estava sempre desconfiado, vigilante, para ela provas de amor e atenção.

Claro está que esses exemplos não significam uma generalização. Os tempos antigos passaram, o avanço tecnológico veio para ficar, e ele coexistirá com toda carência de rumos de nossa época. Novos padrões não significam padrões inexistentes ou inconsistentes, como agora.

Ocorre que o nosso inconsciente esta aí mesmo, ontem como hoje. E ele continuará a fazer o seu trabalho, utilizando tudo em benefício próprio.

Os relacionamentos afetivos podem iniciar em qualquer lugar, inclusive na Internet.

Mas uma relação é como uma planta, precisa de luz para crescer. Que ela saia das sombras e venha enfrentar a difícil e depuradora realidade.

Caso contrário, a Internet representará, cumprindo os propósitos do inconsciente, um enorme útero protetor, onde muitos mergulharão e ficarão, docemente embalados em fantasias, podendo representar mil papéis, sem comprometer-se com nenhum

Instinto Materno


Psicóloga Ana S. Botto

Instinto Materno – Uma Verdade?
“Certo dia , uma mulher de 35 anos nos interroga sobre o seu medo de ser mãe. Profissional estabilizada, não encontrava em si o famoso 'Instinto Materno'. Alguns minutos de prazer e longas horas de perturbação, assim imaginava sua relação com as crianças."

Munidas de identidade social feminina, muito próximas da imagem de Nossa Senhora, eterna provedora e nutriente, as mulheres "apenas humanas" hoje se confrontam com uma ambigüidade básica em relação a maternidade.
Se, por um lado, viver esta experiência é a realização de um investimento pessoal e relacional, por outro as fantasias de perda - depressivas, e de ataque - persecutórias, estão presentes de forma mais ou menos inconsciente, acarretando, em relação a idéia de ser Mãe, uma forte ambivalência.

A procura de uma identidade materna que preexista ao nascimento do filho, acarreta uma frustração que vem sendo o campo sobre o qual, em muitos casos, a mulher se impede de ser mãe.

Este questionamento de forma alguma é inédito em nossa sociedade. Como, no passado, a maternidade era mais uma fatalidade que uma escolha da condição feminina, não havia campo para se exteriorizar estas dúvidas. Ser mulher era uma idéia inseparável à da maternidade, sendo a negação desta vivida como defeito.

Mas, se hoje ser mãe não é mais uma imposição ao papel feminino, ainda está, em nossa cultura, o pré-conceito social da Grande-Mãe. Aquela vocação que seria inata, não mais apenas universal. A mulher que não descobre dentro de si esta "virtude", este "instinto" materno, se impossibilita desta vivência.

Proponho abandonar por alguns momentos este preceito do instinto materno. Não pensem que é tarefa fácil, pois este é mais um daqueles chavões culturais que se inscrevem em nosso pensamento como uma verdade absoluta e inquestionável.

Neste ponto, poderemos inserir uma outra premissa : os laços que vinculam com tamanha proximidade a mãe e o filho, ocasionando uma célula vivida como indissolúvel, é desenvolvido com o tempo da relação. Não há, então, um vínculo, um instinto, que exista anterior ao nascimento.

Pode-se argumentar sobre todos os sonhos que antecederam ao nascimento. Não seriam estes sintomas de um amor, as sementes da relação que está por vir?

A expectativa, na gravidez e mesmo antes desta, são de base projetiva e a criança nasce investida, não pelo "aqui e agora" da relação, mas pelo que se atualizou em sua imagem. É uma expectativa patologizante, caso persista ao nascimento, por não permitir a emergência e desenvolvimento do novo vínculo, sobrevivendo apenas a repetição.

As projeções vão sucumbindo à medida em que a realidade relacional vai- se firmando.

O nascimento é uma caixinha de surpresas, vivida com grande expectativa por seus participantes. O bebê que nasce é uma novidade e um estranho, sendo este o momento zero da relação, o qual possibilita tanto a inscrição paterna, quanto materna, em igualdade.

O novo bebê (conceito que antecede a vivência de filho) é vivido como uma ameaça à qual poderão (ou não) os pais e a família se adaptarem. Universalmente, a primeira busca no corpo deste pequeno ser são os dedos. Contam-se os dedos dos pés e das mãos, realizando a fantasia interna que ali pode ter brotado algo diferente. Como na ficção do extra-terrestre - o "E.T." de 3 dedos.

Este novo bebê vem munido de tudo que é necessário para o estabelecimento do vínculo - seu pequeno tamanho, sua fragilidade e dependência, suas gracinhas, seu choro, uma relação que se estabelece e se consolida dia após dia. Para aqueles que se permitem o convívio - Pai, Mãe e tantos outros - este apelo à relação é irresistível.

O poder e o desejo de estabelecer vínculos, este, sim, é inato ao Ser Humano.

O momento do nascimento é o Tempo-Zero da relação, onde se deve buscar despir, o mais plenamente possível, as expectativas pessoais e sociais (principalmente as relacionadas aos desempenhos dos papéis), para se investir nesta nova possibilidade de vinculação emocional que surge.

E aí , sim, criado o vínculo, nascem os papéis: Mãe - Filho, Pai - Filho. Os seres pai e mãe relacionais são uma descoberta que se estabelece a partir do vínculo e se consolida e cresce com o tempo de relação.

Neste Tempo-Zero relacional, a criança, seja adotiva ou natural, são igualmente estranhas.

O processo de adoção é um período projetivo, assim como a gravidez. Na chegada do novo e pequeno ser ao berço familiar, também estas expectativas devem ser vencidas, para o surgimento da nova relação de papéis que ali se inicia.

Aqui, também, as vivências ambíguas de perda e de ataque estão presentes, se manifestando na fantasia quanto a carga genética ou traumas acumulados que a nova criança possa trazer.

É sabido que, em curto prazo, os pais que possuem tanto filhos adotivos como naturais, já não reconhecem mais emocionalmente a diferença.

É também neste vínculo, que ser Pai e ser Mãe é vivido como descoberta e possibilidade da relação.

Mesmo o mito de que a criança é mais voltada à mãe que ao pai, deve ser analisado em função do desempenho do papel social, que reservava mais tempo de convivência à mulher com a prole, enquanto o homem preservava sua função no distanciamento.

Hoje, o homem também se permite descobrir no vínculo o seu Ser Pai, construindo esta possibilidade e podendo estar tão afetiva e instintivamente ligado a este papel quanto o Ser Mãe.

Respondendo, então, à sua dúvida, amiga, tenha a certeza que o amor em relação aos seus futuros filhos, surgirá no tempo certo, sendo desenvolvido no dia a dia assim como seu Ser Mãe.

Estas são vivências que não pré-existem em nosso interior. Nascem no vínculo, mas não sucumbem ao término deste. Um Eu (Ser Mãe ou Ser Pai), quando surge, nos acompanha por todo o sempre.

Difícil é, para os Pais, o resgate da própria dependência, na independência dos filhos.

O Crescimento na Angústia


Psicóloga Ana S. Botto

No curso de nosso desenvolvimento, diversas perdas se interpõem à nossa jornada. Em maior ou menor intensidade, elas ficam registradas em nós, se fazendo presentes, como se o tempo não tivesse ocorrido. Ficam nos desarmonizando, não nos permitindo prosseguir antes de termos elaborado estes obstáculos.

A psicoterapia é exatamente este agente de elaboração e mudança interna. Ela nos traduz o sentido de nossos padecimentos, tornando a dinâmica de nosso inconsciente favorável ao nosso crescimento. De vitimados, nos tornamos agentes de nossos processos.

A atitude pessoal de submeter-se a um processo psicanalítico se fundamenta em um comprometimento interno com esta mudança. Quando os padrões enraizados se mostraram de alguma forma ineficazes, surge o desejo de crescer através do auto-conhecimento.

O tratamento visa uma reeducação emocional, pela localização de nossos bloqueios manifestos através de nossas ansiedades, angústias, fobias ou tantas outras formas que o inconsciente lança mão. Estes começam a ser vistos como sintomas, como uma fala interna em busca de elaboração.

A psicoterapia faz com que obtenhamos êxito neste processo. Todo sintoma retrata uma grande história condensada do indivíduo. São forças internas em conflito que geram um dispêndio enorme de energia mental. Esta energia deixa de estar disponível para outras coisas, acarretando uma empobrecimento da pessoa.

Temos uma determinação interna à evolução. Desta forma, conteúdos emocionais não elaborados formam uma espécie de nódulo, uma cristalização. Em algum período de nossas vidas este represamento tentará a ser rompido. As circunstâncias emocionalmente não elaboradas de hoje virão, então, cobrar sua solução interna, fazendo com que nos confrontemos com circunstâncias que nos propiciem esta reedição. Isto, quantas vezes se mostrarem necessárias. Freud nos exemplifica este processo ao comparar nosso desenvolvimento emocional a um povo em movimento que deixa ao longo do caminho fortes destacamentos (estes seriam os nódulos emocionais). As frações mais adiantadas deste povo teriam uma grande tendência, quando vencidas, ou quando enfrentassem um inimigo demasiado forte, a voltar sobre os próprios passos para se refugiar junto aos destacamentos retardatários.

Enquanto não nos libertamos através da elaboração destes nódulos traumáticos, ficamos como um pião rodando em torno deste eixo. É a oportunidade que a natureza do nosso inconsciente nos proporciona de crescer.

A psicoterapia vem como um socorro que apóia e viabiliza esta elaboração, fazendo com que compreendamos o sentido interno da angústia e sintomas, diluindo então a repetição e permitindo por conseqüência o crescimento interno.

O papel do analista é o de um "eu auxiliar' ao do paciente, ampliando sua possibilidade de escuta interna e de elaboração. A terapia nos proporciona insights, momentos únicos nos quais nos entendemos de uma forma dinâmica, onde nossos sintomas se revelam para nós de forma compreensível. Nos auxilia na reformulação de padrões comportamentais que não mais nos servem no presente, sendo verdadeiros entraves, embora tão intimamente comprometidos conosco.

O terapeuta é o nosso companheiro neste caminho de reforma íntima e superação, permitindo em nós o surgimento de um indivíduo liberado para uma vida mais satisfatória