sábado, 3 de julho de 2010

Estudo comprova que bater em criança a torna mais agressiva

da France Presse, em Washington

Os castigos físicos repetidos impostos a crianças de três anos levam, frequentemente, à agressividade aos cinco, segundo um estudo divulgado na capital americana.

Os resultados reforçam as conclusões de pesquisas anteriores segundo as quais as crianças que sofrem punições físicas têm quociente intelectual mais baixo e que os castigos frequentes estão ligados à ansiedade e a problemas maiores de conduta criminal ou violenta, depressão e consumo excessivo de álcool.

Cientistas acompanharam o comportamento de 2.500 mães em diferentes pontos dos Estados Unidos.

Quase a metade relatou que não havia castigado fisicamente seus filhos de três anos durante os últimos 30 dias, enquanto 27,9% admitiram que o fizeram em uma ou duas oportunidades e 26,5%, mais de duas vezes.

Dois anos mais tarde, as mães que haviam castigado os filhos com maior frequência reportaram nos filhos, já com cinco anos, maiores níveis de agressão, tais como os atos de gritar, brigar, destruir coisas, crueldade ou agressividade para com os outros.

"Há formas efetivas de disciplinar crianças além de impor castigos físicos", comentou a diretora do estudo, Catherine Taylor da Faculdade de Medicina da Universidade Tulane.

"A boa notícia é que se o pais evitarem bater em seus filhos, usando métodos efetivos, não físicos de disciplina, meninos e meninas têm mais possibilidades de serem mais saudáveis, de se comportarem melhor", acrescentou.

A Academia Americana de Pediatria recomenda castigos como o cancelamento de privilégios e medidas lógicas como retirar os brinquedos pelo restante do dia se a criança não os recolhe, por exemplo.

O estudo será publicado na revista "Pediatrics".

Insubstituível?

Na sala de reunião de uma multinacional o diretor nervoso fala com sua
equipe de gestores, Agita as mãos, mostra gráficos e, olhando nos olhos
de cada um ameaça: "ninguém é insubstituível" .


A frase parece ecoar nas paredes da sala de reunião em meio ao
silêncio. Os gestores se entreolham, alguns abaixam a cabeça.
Ninguém ousa falar nada.

De repente um braço se levanta e o diretor se prepara para triturar o
atrevido: - Alguma pergunta?
- Tenho sim.
-E Beethoven ?
- Como? - o encara o diretor confuso.
- O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu Beethoven?
Silêncio.....

O funcionário fala então:
- Ouvi essa estória esses dias contada por um profissional que conheço
e achei muito pertinente falar sobre isso.

Afinal as empresas falam em descobrir talentos, reter talentos, mas, no
fundo continuam achando que os profissionais são peças dentro da
organização e que, quando sai um, é só encontrar outro para por no
lugar.

Quem substituiu Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Ghandi? Frank
Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os
Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein?
Picasso? Zico? etc...

Todos esses talentos marcaram a história fazendo o que gostam e o que
sabem fazer bem, ou seja, fizeram seu talento brilhar. E, portanto, são
sim insubstituíveis.

Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado
para alguma coisa.

Está na hora dos líderes das organizações reverem seus conceitos e
começarem a pensar em como desenvolver o talento da sua equipe focando
no brilho de seus pontos fortes e não utilizando energia em reparar
seus 'erros/ deficiências' .

Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo , se Picasso era
instável , Caymmi preguiçoso , Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico ...

O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de
arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus
talentos.

Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e
voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro.
Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto.

Se seu gerente/coordenador , ainda está focado em 'melhorar as
fraquezas' de sua equipe corre o risco de ser aquele tipo de líder/
técnico, que barraria Garrincha por ter as pernas tortas, Albert
Einstein por ter notas baixas na escola, Beethoven por ser surdo. E na
gestão dele o mundo teria perdido todos esses talentos.

Seguindo este raciocínio, caso pudessem mudar o curso natural, os rios
seriam retos não haveria montanha, nem lagoas nem cavernas, nem homens
nem mulheres, nem sexo, nem chefes nem subordinados . . . apenas peças.

Nunca me esqueço de quando o Zacarias dos Trapalhões 'foi pra outras
moradas'. Ao iniciar o programa seguinte, o Dedé entrou em cena e falou
mais ou menos assim: "Estamos todos muito tristes com a 'partida' de
nosso irmão Zacarias... e hoje, para substituí-lo, chamamos:... .
Ninguém ... pois nosso Zaca é insubstituível"

Portanto nunca esqueça: Você é um talento único... com toda certeza
ninguém te substituirá!

"Sou um só, mas ainda assim sou um. Não posso fazer tudo..., mas posso
fazer alguma coisa. Por não poder fazer tudo, não me recusarei a fazer
o pouco que posso."

"No mundo sempre existirão pessoas que vão te amar pelo que você é...,
e outras..., que vão te odiar pelo mesmo motivo..., acostume-se a
isso..., com muita paz de espírito. ..".
É bom para refletir e se valorizar!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Da saudade

Texto: Cecília Meireles

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como “delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.

Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.

Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem , como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor . O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.

Armadilha

Tinha sete anos, ou um pouco mais. Insegura, indecisa, estava indo à escola. Usava um tênis conga, cor de rosa .
A avenida estava sendo asfaltada, o betume extremamente mole.
As colegas conseguiram dar a volta e escapar do betume que acabara de ser jogado. Ela não, ela só conseguiu não saber para onde ir e afundou os pés no macio creme negro, até as meias.
Ficou imóvel, não dava para se mexer.
Todos riram, as colegas, os transeuntes, os operários que manuseavam o piche.
Ficou lá um tempo em desespero, como um bicho caído em armadilha.
Vergonha, culpa, vontade de chorar ( embora não tenha conseguido ), foram alguns dos sentimentos mais toleráveis que lhe vieram enquanto estava colada ao piche.
Já estava imaginando que aquilo geralmente acontecia com ela, quer dizer, aquele tipo de vexame, humilhação, aquela condição de ser jogada no chão, onde todos podiam fazer o que quisessem com ela; chutar, cuspir em cima, jogar pedras e acima de tudo e mais tenebroso, rirem dela, rirem muito, sem parar. Muita diversão.
Permaneceu imóvel, procurando não encarar ninguém, tentando assimilar sua condição de bicho preso em armadilha.
Um dos operários finalmente conseguiu chegar até ela, tirar suas congas dos pés, colocá-la no colo e levá-la até a calçada.
Uma de suas colegas ainda rindo muito, lhe perguntou como ela iria chegar até á escola calçada só de meias.
A pergunta não teve resposta e só então vieram o choro contido e o desespero estampados em seu rosto.
Uma das meninas teve a idéia de deixá-la ficar em sua casa durante a tarde, emprestar um par de chinelos para que ela pudesse ir para casa.
Assim ela conseguiu adiar o inevitável, ou seja, mais humilhações provenientes do pai e da mãe. E no final a surra, que a deixaria com marcas pelo corpo todo.
Mas as piores marcas eram as que ficavam na alma, e ainda bem ninguém poderia ver.

Pseudônimo: Cida Morena

A Pedra de Toque

Existe uma lenda que conta que, quando a grande biblioteca de
Alexandria foi queimada, um livro foi salvo. Mas não era um livro de muito valor, por isso um homem pobre, que pouco sabia ler, comprou-o por uns tostões.
O livro não era realmente muito bom, mas nele havia algo
interessantíssimo. Era um tipo de pergaminho, no qual estava escrito o segredo da "pedra de toque".

A pedra de toque era uma pedrinha comum, que podia transformar qualquer metal em ouro puro. No pergaminho estava escrito que era encontrada nas praias do Mar Negro, misturada a outras milhares e milhares de pedras exatamente iguais a ela. Mas o segredo era este: a pedra real era quente, enquanto as outras eram frias. Então, o homem vendeu os seus poucos
pertences, comprou alguns mantimentos e foi acampar na praia, onde começou a testar as pedras.

Esse era seu plano: ele sabia que se pegasse as pedras comuns e as jogasse de volta ao chão, poderia pegar a mesma pedra centenas de vezes.
Então, quando pegava uma fria, ele a jogava ao mar. Assim, passou uma semana um mês, um ano, três anos... e o homem não encontrava a pedra de toque.
Mas, mesmo assim, ele continuava: pegava uma pedra, era fria,
jogava-a no mar... e assim por diante. Imagine o homem fazendo isso por anos e anos: pegar uma pedra, senti-la fria, jogá-la no mar... de manhã até a noite, por anos e anos.

Mas, uma manhã, ele pegou uma pedra que estava quente, e jogou-a no mar. Ele criara o hábito de jogar as pedras no mar, vocês compreendem, e o hábito fez com que ele jogasse a pedra quente também, quando finalmente a encontrara. Pobre homem!

É assim que a mente funciona. A confiança é uma pedra de toque.
Muito raramente você encontra alguém em quem você pode confiar.
Muito raramente você encontra um coração quente, amoroso, no qual pode confiar. Normalmente, você encontra pedras que parecem a pedra de toque, quase iguais, mas São frias. Por anos, desde a infância, você pega uma pedra, sente-a fria, e a joga no mar.

Um dia é um fenômeno muito raro - , você encontra a verdadeira
pedra de toque. Você a pega, sente que é quente, mas, mesmo assim, você a joga. Então, você irá chorar, sem saber como isso pôde acontecer. É um simples mecanismo. Desde a infância, você aprende a desconfiar.
Você é educado de tal maneira que não pode confiar. A dúvida foi colocada bem fundo no seu ser. Na verdade, é uma medida de segurança: se não duvidar, não sobreviverá. Você tem que olhar o mundo com olhos hostis, como se todos fossem seus inimigos. Ninguém é quente, ninguém é uma pedra de toque. Você não pode confiar nem em seus pais.
Aos poucos, a criança percebe que não existe ninguém em quem
pode confiar. Os pais são muito contraditórios: dizem uma coisa e fazem outra. A criança sente-se confusa; é difícil para ela entender o que realmente a mãe quer. Na verdade, nem a própria mãe sabe. E, cada vez mais, a criança sente que é impossível confiar em alguém.

Osho

Jornada com o Urso

O Urso é um dos mais antigos animais totemicos, aquele que oferece a Nutricão, a Proteção e a Sabedoria.. Dezenas de tribos indígenas tem mitos e costumes que mostram um enorme respeito pelo urso. Lendas antigas falam dos tempos em que os 2 pernas, ou seres humanos, dividiam as cavernas com seus
parentes ursos.Outras tradições nos falam que o urso é o guardião do chackra do coração da Terra. Até aqueles que entendem a teoria da Terra ser um ser vivo, podem ainda não ter sentido isso em seus corpos, corações e ossos. Uma das funções do urso é ajudar as pessoas a sentirem isso.Uma vez que você tenha conseguido sentir em cada célula do seu corpo a
batida do coração da Mãe Terra, nunca mais se sentirá desconectado do ritmo que o conecta à todos os seres. Seu corpo emocional tem a chance de receber uma enorme energia de cura através do reconhecimento dessa ressonância, da sua ligação, com essa pulsação.Permita que isto faça a partir de agora parte do seu ser. Nunca mais você deve se sentir sozinho ou apartado da Mãe. Através da consciência deste pulsar. Você poderá sentir o sentido do tempo, como que inalando e expirando as ondas do mar, as marés da terra. É como colocar sua cabeça no peito de alguém que você ama. O urso lhe ajuda a experenciar esta conexão profunda.Alguns aliados podem ensinar especificamente sobre a cura. O urso pode também, por ensinar que a compreensão e o entendimento naturais, resultam na cura. Ele é um orientador especial porque está familiarizado com a forma com que os cristais e as ervas crescem e são encontrados nas cavernas em que ele faz sua morada. Ele ajuda a lembrar a sabedoria dos ancestrais, e lhe dizer intuitivamente quais ervas usar e para quê.As crianças, e também a sua criança interior, ficam felizes em ter o urso por perto, ele é um brincalhão por natureza, e também alivia o medo delas do
escuro e de dormirem sozinhas.Para visitar o urso através de uma jornada, você precisa viajar para os reinos escuros do gelo e dos cristais. Esta jornada lhe leva para um lugar aonde você pode aprender e ver sobre auras , assim como a Aurora Boreal, que alguns dizem ser a aura da terra.Se você deseja trabalhar regularmente com o urso, seria bom ter alguma foto, pintura, ou talismã confeccionado por você, para facilitar a sua mente
consciente a se ligar com ele.Preste atenção quando o urso aparecer em seus sonhos, e escute atentamente a mensagem que ele traz. Os ursos estão sempre trabalhando em tempos de sonho, especialmente durante a hibernação. Os índios Cherokees dizem que quando eles estão hibernando, estão em transe, e curando a Terra. Se fizer jornadas com o urso, fique relaxado para serem mais longas. Ele não tem pressa, pois quer compartilhar muitas vivências e ensinamentos, e gosta de ficar em quietude por um longo tempo, permitindo que você tenha insights sobre questões específicas.Se tiver uma batida de tambor para acompanhar seria melhor ainda, como se ela fosse o pulsar da Terra e você começasse a sentir o seu movimento.

Jornada com o Urso :Preste atenção para o caminho cheio de musgo e a floresta em que você caminha…veja ao longe a caverna do urso, no escuro, no inverno, ao Norte…um terreno montanhoso…cheio de vales e riachos, pequenos atalhos com ventos vindos do Noroeste….Faça uma pausa e escute…Você pode escutar o urso….ele está se movendo como num balançar, para frente e para trás…de lado a lado…e ouça o tambor…boom… boom…boom…que o coloca em conexão com o pulsar de Gaia… sinta isso nas suas células e nos seus ossos, penetrando e vibrando em você todo….sinta o vigor da terra penetrando pelos seus pés….Quando sentir o pulsar através de todo seu ser, chame pelo urso várias vezes de maneira sutil e respeitosa…e ele virá até a entrada da caverna para saudar você….Perceba que ele tem uma espécie de corda no pescoço que lhe permite se
quiser, subir em seu dorso e andar com ele abraçado até um lago cristalino perto da caverna. Pode ser que ele lhe ajude a sentir um pouco a água fria, retirando-o em seguida….Esta sensação de imersão nas águas, pode lhe ajudar a imergir num nível bem profundo do seu ser. Apesar de sair desta água bem depressa, o efeito perdura, e é como se tivesse recebido uma poderosa
purificação.Agora ele lhe leva para ver na floresta , o quanto e como você está se relacionando intimamente com a Natureza. Pode ser que ele lhe convide a colher ervas, ou lhe leve para a caverna para lhe mostrar os cristais e lhe ensinar o Conhecimento de como trabalhar com eles. O urso também sabe o caminho para as estrelas, e o conhecimento delas.Deixe-se levar para o que mais precisa aprender neste momento.Depois ele lhe leva para uma parte ainda mais profunda da caverna, aonde o teto está repleto de cristais crescendo naturalmente há milhares de anos.
Está frio e a água escorre delicadamente do teto.Talvez ele lhe dê um cristal tirado do teto e lhe ensine a trabalhar com ele
para sua própria cura, seja ela física ou emocional.Você pode neste momento lhe dar algo para ajudá-lo também no seu trabalho. Quando sentir que sua troca com ele terminou, despeça-se com respeito, agradeça e saia da caverna. Volte pelo mesmo caminho que veio, e escreva e se lembre sempre desta experiência profunda…

Autora Valéria Wagner

A Arte de Engolir Sapos


Rubem Alves

O Adão, meu amigo, professor de biologia, já encantado, amava os sapos.
Dedicou sua vida a estudá-los. Estudava e admirava. Era capaz de identificá-los não só por sua aparência física como também pelo seu canto.
Acho que o Adão achava os sapos bonitos. E é certo que eles têm uma beleza que lhes é peculiar. O filósofo Ludwig Feuerbach diria que para os sapos não existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles houvesse teólogos, haveriam de dizer que Deus é um sapo. Cada forma de vida é o Bem Supremo para si mesma.

Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Adão, escrevi um livro para crianças em que um dos heróis é o sapo Gregório. Mas desejo confessar que não acho os sapos bonitos. Bonita eu acho a sua cantoria durante a noite, a despeito da sua falta de imaginação e monotonia. Mas o que ela perde em riqueza estética é plenamente compensado pelo seu poder hipnótico, o que é bom para fazer dormir.

Mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de leva-lo logo a um psicólogo para saber o que havia de errado com ele. Sapo é bicho de pesadelo.

Quem sugere isso são as Escrituras Sagradas. Está relatado, no capítulo oitavo do livro de Êxodo que Deus, para dobrar a obstinação do faraó egípcio que não queria deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe uma série de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o texto que a praga era de rãs, mas não faz muita diferença. “Eis que castigarei com rãs todos os teus territórios, o rio produzirá rãs em abundância, que subirão e entrarão em tua casa, no teu quarto de dormir, e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo, e nos teus fornos e nas tuas amassadeiras. ” Já imaginaram o horror? A gente entra debaixo das cobertas e sente o frio das rãs que lá estão. Morde o pão e dentro dele está uma rã assada.

Nas estórias infantis é a mesma coisa. A bruxa poderia ter transformado o príncipe numa girrafa, num tatu ou num gato. Escolheu transformá-lo no mais nojento, um sapo. E há aquela estória em que o sapo queria dormir na cama com a princesinha. Tão horrorizada ficou de ter de dormir com um sapo que ela, para evitar os beijos e seus desenvolvimentos inevitáveis, pegou-o pela perna e o jogou contra a parede. Esse ato teve efeito mágico pois que, ao cair no chão, o sapo transformou-se em príncipe. Já aconselhei pessoas a lançar contra a parede seus sapos e sapas conjugais, para ver se o contra-feitiço funciona também para os humanos. Parece que não.

O horror do sapo parece também numa sugestiva expressão popular: “ter de engolir sapo”. Por que não “ter que engolir gato”, “ter de engolir borboleta”, “ter de engolir tico-tico”? Porque mais nojento que sapo não existe.

Essa expressão traz o sapo para o campo das atividades alimentares. Engolir é comer. O ato de comer é presidido pelo paladar. O paladar é uma função discriminatória. Ele separa o saboroso do não saboroso. O saboroso é para ser engolido com prazer. O não saboroso, o corpo se recusa a comer. Cospe. “Ter engolido sapo”: ser forçado a colocar dentro do corpo aquilo que é nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole.

Não há forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo é ser estuprado pela boca. Há um ditado inglês que diz: “If you are going to be raped, and there is nothing you can do about it, relax and enjoy it” : se você vai ser estuprado e você não pode fazer nada para impedi-lo, relaxe e trate de gozar o mais que puder. Esse ditado sugere a possibilidade de se sentir prazer em ser estuprado. Pode até ser. A psicanálise me ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos. Mas não há relaxamento que faça do ato de engolir sapo uma experiência prazerosa.

Por que engolir um sapo?

Há pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possível evitar a repulsiva refeição: o sapo é um sapinho. Mas elas preferem engolir o sapo a enfrentá-lo. Não têm coragem de pegá-lo e jogá-lo contra a parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre rente ao chão e coaxam monotonamente.

Mas há situações em que é inevitável engolir o sapo. Eu mesmo já engoli muitos sapos e disto não me envergonho. O meu desejo, com esta crônica, é dar uma contribuição ao saber psicanalítico, que até agora fez silêncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neuróticos que afligem as pessoas resultam de sapos engolidos e não digeridos.

Tudo começa com um encontro: à minha frente um sapo enorme, ameaçador, com boca grande. A prudência me diz que é melhor engolir o sapo a ser engolido por ele. É melhor ter um sapo dentro do estômago(sapos engolidos nunca vão além do estômago) do que estar no estômago do sapo.

Aí, impotente e sem ações, deixo que ele entre na minha boca, aquela massa mole nojenta. É muito ruim. O estômago protesta, ameaça vomitar. Explico-lhe as razões. Ele cessa os seus protestos, resignado ao inevitável. Não consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele escorrega e cai no estômago.

Alimentos não digeríveis são eliminados pelo aparelho digestivo de duas formas: ou são expelidos pelo vômito ou são expelidos pela diarréia. Os sapos são uma exceção. Não são digeridos mas não são nem expelidos pelas vias superiores e nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no estômago. Transformam-no em morada. Ficam lá dentro. Por vezes hibernam. Mas logo acordam e começam a mexer.

Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece. Diz a Adélia que “aquilo que a memória amou fica eterno”. Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande Sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: “Mato mas nunca fico com raiva”. Retruca o outro, espantado: “Mas como?” Explica o primeiro: “Quem fica com raiva leva o outro para a cama.” É isso. A gente leva, para a cama, a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo. Ou como dizia uma propaganda antiga de loteria, a gente reza: “O seu dia chegará...” (O amor que acende a lua, pg. 105.)