quinta-feira, 13 de maio de 2010

A memória do seu filho é maior do que você imagina


Novo estudo mostra que as experiências vividas até os 5 anos são importantes para o desenvolvimento emocional
A cor das paredes do quarto, os brinquedos preferidos, as festas de aniversário e os primeiros amigos. Engana-se quem pensa que criança não se lembra das experiências vividas durante a infância. Desde que nascem, os bebês exercitam a memória ainda como uma estrutura que está sendo construída dia após dia. Como eles têm uma limitação motora e de linguagem nessa fase, respondem aos estímulos de outra maneira. É utilizando a memória que o bebê reconhece a voz dos pais, pede para brincar com um brinquedo específico e pára de chorar quando alguém próximo o pega no colo.

Um novo estudo, publicado na edição de maio da revista Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine (Arquivos de Pediatria e Medicina da Adolescência), mostrou que os momentos vividos entre o nascimento e os 5 anos de idade são muito significativos para a saúde e o desenvolvimento emocional da criança a longo prazo. Se as lembranças forem boas são capazes de melhorar o comportamento, mas se forem ruins podem desencadear até problemas psicológicos.

“Esse estudo mostra a importância de um ambiente saudável e acolhedor dentro de casa. Durante a infância, a criança absorve todas as informações e sensações do lugar onde vive e das pessoas próximas, principalmente dos pais”, diz a psicóloga Saada Resende, especialista em neurologia, do Hospital Samaritano (SP). Se você estava em dúvida se seu bebê ia aproveitar uma exposição de arte ou uma viagem, é hora de começar a organizar as malas. É assim que seu filho vai construir as primeiras lembranças

Fonte: CRESCER

terça-feira, 11 de maio de 2010

Se bem utilizada, internet pode ajudar alunos na escola


Aos olhos de muitos pais e professores, internet e estudo nunca foram uma boa combinação. Bate-papos virtuais, sites de jogos online e outras "diversões" da rede são constantemente associados a notas e rendimento escolar baixos. Mas nem tudo na web é prejudicial ao aluno: diversos sites permitem que estudantes, de um jeito mais divertido, tenham contato com temas considerados difíceis em sala de aula.

"A internet já é uma realidade em praticamente todas as casas e isso não pode ser ignorado. Se bem utilizada, pode ser uma ferramenta muito útil de auxílio ao aluno", afirma a pedagoga Aline Feijó.

Ao navegar pela rede, crianças e adolescentes encontram um verdadeiro arsenal para auxiliar em pesquisas e trabalhos escolares. O Museu da Língua Portuguesa (museulinguaportuguesa.org.br), em São Paulo, traz em seu portal informações sobre exposições, fotos das dependências do local, além de textos que podem ajudar os estudantes na hora de fazer uma redação.

Se a dúvida for sobre História do Brasil, a página do Museu Histórico Nacional (www.museuhistoriconacional.com.br), no Rio, possui amplo arquivo sobre fatos e acontecimentos relevantes da história do país.

Para Bruno Engel, 11 anos, a internet é um poderoso aliado dos trabalhos solicitados por professores em sala de aula. Por isso, sempre que precisa se aprofundar mais sobre determinado assunto, recorre a sites de pesquisa como Google (www.google.com.br) e Wikipedia (www.wikipedia.org).

Pesquisas na rede
"É muito melhor do que pesquisar em jornais e revistas, que podem não falar sobre o assunto que eu preciso. A internet é mais rápida", explica. Além de ajudar o aluno, pais e professores também costumam recorrer ao Google para evitar que recursos com o copiar e colar sejam utilizados por estudantes.

"Geralmente acompanho a pesquisa junto com meu filho. Mas mesmo assim, depois que ele termina, costumo jogar alguns trechos do texto no Google para ver se ele não copiou na íntegra, ao invés de apreender o sentido e fazer sua própria redação", revela Ana Cristina Fiedler, mãe de Bruno.

Para estimular a criatividade, alguns sites apostam na interatividade para conquistar usuários mirins. É o caso da Máquina de quadrinhos (www.maquinadequadrinhos.com.br), que disponibiliza personagens da Turma da Mônica para que aspirantes a escritor possam desenvolver suas próprias histórias em quadrinho.

Se o objetivo do aluno for saber um pouco mais sobre temas como ecologia, saúde, e ainda conhecer a realidade de comunidades de baixa renda, o site Cambitolândia é o endereço ideal. Com jogos, histórias e diversas atividades interativas, a página do personagem Cambito tem tudo para divertir - e ensinar - crianças e adolescentes.

Consideradas as grandes vilãs pela maioria dos estudantes, matérias como Matemática, Física e Química podem ser aprendidas de um jeito mais divertido. O Ministério da Educação (http://rived.mec.gov.br/site_objeto_lis.php ) e a Escola do Futuro da USP (http://www.labvirt.fe.usp.br/indice.asp )criaram, em seus respectivos portais, jogos interativos que ensinam noções destas matérias aos estudantes.

Apesar de tantos atrativos, a internet não deve ser utilizada sem um monitoramento de pais e professores. Estabelecer um limite máximo de horas passadas em frente à tela do computador é um dos maiores dilemas entre pais e filhos.

"Apesar de sites divertidos e ferramentas de auxílio para pesquisas, a criança e o adolescente não podem esquecer-se de praticar um esporte, ler um livro e sair com os amigos. A internet deve ser apenas mais uma delas", afirma Aline.

Fonte: Terra.com

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bebês sabem a diferença entre o bem e o mal


Aos 6 meses, é provável que seu filho já saiba sentar, engatinhar e balbuciar as primeiras sílabas. Mas, segundo um estudo feito pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, ele já saberá distinguir o bem e o mal. Para chegar a esse resultado, os cientistas contaram histórias com fantoches com a mesma fisionomia para bebês de 6 meses. Os bonecos tentavam subir uma montanha. Um dos fantoches ajudava o boneco que estava tentando escalar enquanto um outro tentava derrubá-lo. Depois de assistir ao show várias vezes, todos os bebês mostraram uma clara preferência para o brinquedo que estava tentando ajudar o outro. Algumas crianças chegaram até a bater no fantoche ruim.

Segundo o coordenador da pesquisa, o professor de psicologia Paul Bloom, existem cada vez mais evidências que mostram que os seres humanos têm um senso moral rudimentar desde o início da vida e que vai se aprimorando com o passar do tempo. Outro dado da pesquisa, e que não é nenhuma novidade para você, é que as atitudes dos pais influenciam o aprendizado dos filhos.


Fonte: CRESCER Revista

domingo, 9 de maio de 2010

Bruxas, monstros e morte

Por Rosely Sayão

A mãe de uma garotinha de quase quatro anos escreveu para contar que estava considerando a possibilidade de tirar a filha da escola. O motivo? A professora conta histórias para as crianças que tratam de morte, falam de monstros, bruxas e de todo tipo de ser imaginário. Para essa mãe, isso gera medo e angústia na filha e, por isso, ela tem pesadelos frequentes. Como nossa leitora não está sozinha nesse tipo de pensamento, vamos conversar a respeito.

Temos feito de tudo para evitar que a criança sofra, não é? Ou, pelo menos, tentamos evitar que elas tenham contato com tudo o que julgamos que pode gerar dor, ansiedade, angústia e outros sentimentos semelhantes. O tema emblemático nesse sentido é a morte. Escondemos a morte das crianças: esse não é mais um tema de conversa entre pais e filhos, elas não mais participam de velórios e funerais, evitamos que assistam a filmes ou ouçam histórias que trazem a ideia de morte à tona.

Conheço uma mãe de duas crianças pequenas que assiste a cada filme infantil antes de seus filhos para averiguar se não há cenas que assustam ou trazem a presença da morte. Ela não deixou os filhos assistirem à animação "Procurando Nemo" porque a mãe do peixinho morre e ela não achou adequado que as crianças fizessem perguntas sobre isso. Consideramos esse assunto muito pesado para elas e, por isso, procuramos poupá-las dele, como se isso fosse possível. É preciso saber que não é.

Não são as histórias com seus enredos e personagens que criam para a criança conflitos, medos e angústias e tampouco apresentam a ela o tema da morte. Essas são questões humanas e, ao contrário do que alguns pensam, os personagens fantásticos e as tramas dessas histórias ajudam a criança a encontrar caminhos para entender e superar, pelo menos temporariamente, o que sente.

A atitude chamada "politicamente correta" de transformar histórias e lendas infantis de modo a subtrair delas o que consideramos que possa fazer mal à criança ou sugerir o que consideramos "maus exemplos" não faz o menor sentido. Será que esquecemos que o que pode fazer mal a elas é o que está presente na realidade do mundo adulto, agora totalmente acessível a elas?

Não é hipócrita não mais cantar "Atirei um pau no gato", mas permitir que as crianças assistam a campeonatos de futebol em que jogadores intencionalmente se agridem para levar vantagem? Não é curioso evitar que elas ouçam histórias de bruxas que perseguem crianças, mas permitir que assistam a noticiários que mencionam assassinatos e abusos sexuais de crianças?

Que as bruxas, os duendes e os monstros, as madrastas malvadas e as crianças órfãs habitem o imaginário de nossas crianças é tudo o que podemos desejar. É que nesse mundo, diferentemente do mundo adulto, elas contam com as fadas e suas varinhas de condão, com os príncipes que salvam as princesas do sono eterno e, principalmente, com um final em que o bem vence o mal.

Perdão as Mães

Por Rosely Sayão

Como a data em que se comemora o Dia das Mães está próxima, quero aproveitar e, em nome de muitas escolas, pedir perdão a mulheres que têm filhos que frequentam todos os níveis do ensino básico e da educação infantil.

Senhoras mães: perdão por reclamarmos de seus filhos, por muitas vezes sugerirmos que eles possam ter algum problema emocional, físico ou intelectual e até solicitarmos que eles sejam levados a algum especialista.

É que nossa tradição é a de lidar com alunos exemplares ou medianos, os quais não nos convocam a pensar, refletir ou agir de modo diferente do que estamos acostumados. Então, para evitar que eles revelem as nossas falhas e os nossos limites, adotamos essa postura de creditar a nossos alunos -os seus filhos- alguns defeitos que precisariam ou deveriam ser consertados.

Senhoras mães: perdão por invadirmos tanto a privacidade de sua família, por fazermos tantas perguntas com a finalidade de ter informações que nem usaremos em benefício de seus filhos no exercício de nossa função.

Afinal, saber se nosso aluno foi desejado como filho, como vivem seus pais e quais os problemas que enfrentam e conhecer alguns segredos familiares, por exemplo, não facilita nosso trabalho pedagógico com os alunos, por mais que digamos que sim.

Senhoras mães: perdão por julgarmos e criticarmos a maneira como cuidam de seus filhos e os educam. Demos para acreditar e nem sabemos ao certo o porquê que sabemos mais do que vocês a respeito da educação familiar e nem nos damos conta de que, com os nossos próprios filhos, muitas vezes nos comportamos do mesmo jeito que vocês. Temos nos confundido no exercício de nosso papel e não raras vezes queremos educar vocês em vez de ajudarmos os nossos alunos.

Senhoras mães: perdão por enviarmos tantos bilhetinhos e correspondências na agenda a respeito do que se passa com seu filho na escola, convocarmos sua presença para tantas reuniões coletivas e algumas pessoais e, inclusive, solicitarmos sua intervenção em assuntos que, na verdade, são entre seu filho e a escola.

O problema é que não sabemos mais ao certo como lidar com crianças e adolescentes, não conseguimos encontrar estratégias para resolver as situações problemáticas diretamente com eles aqui no espaço escolar e, por isso, apelamos para sua intervenção na esperança de que as coisas se resolvam dessa forma.

Senhoras mães: perdão por fazermos vocês pensarem que a vida escolar de seus filhos é a coisa mais importante da vida e, assim, contribuirmos para que a função materna fique tão parecida com a função docente.

Por fim, perdão por insistirmos nessa história de comemoração do Dia das Mães e, assim, colocarmos tantas mulheres em situações difíceis perante seus filhos.

Esquecemos que muitas delas não podem por razões que nem nos interessam -ou não querem- comparecer às festas que programamos com o intuito de agradar as mães de nossos alunos. E nessa hora -devemos reconhecer- nem nos lembramos de que não faz parte de nossas funções promover esse tipo de atividade.

Sabemos que pedir perdão é pouco, senhoras mães. Por isso, nos comprometemos a fazer uma reflexão crítica de nosso trabalho.

sábado, 8 de maio de 2010

Televisão prejudica o desempenho escolar


Você controla o tempo que seu filho assiste à televisão? Não?! Uma nova pesquisa, feita pela Universidade de Montreal, Canadá, mostrou que crianças que passam muito tempo em frente à TV têm mais dificuldade de aprendizado. Participaram do estudo cerca de 1.300 crianças com idade entre 2 e 4 anos. Os pesquisadores perceberam que as que ficaram muito tempo em frente à tela prenderam menos. O rendimento em matemática cai 6%, a participação em sala de aula diminui em 7% e as chances desta criança ser vítima de bullying aumentam em 10%.

Para chegar a esta conclusão os pesquisadores aplicaram um questionário aos pais das crianças para saber quantas horas por dia as crianças passavam diante da TV. Na segunda fase do estudo os pequenos foram submetidos a avaliações de desempenho. Dessa forma, eles conseguiram mensurar os impactos da exposição. “O problema não é a televisão em si, mas o tempo que a criança perde com ela. Elas devem ser estimuladas a fazer outras atividades que exijam mais criatividade e interação”, diz Quézia Bombonato, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Mas proibir seu filho de ver televisão não é a melhor solução, não. Como tudo na vida, é preciso encontrar um equilíbrio. Estipular horários para os desenhos, por exemplo, pode ser um caminho. A Academia Americana de Pediatria afirma que as crianças não devem passar mais do que duas horas diante da TV.

Menos comunicação

A fala e a audição também podem ser prejudicadas com o excesso de exposição à televisão. É o que mostrou um estudo realizado no Seattle Children's Research Institute, nos Estados Unidos. Tanto as crianças quanto os adultos conversariam menos na presença do som de uma TV. Os especialistas já sabiam que a exposição televisiva durante a infância está associada com atrasos na fala e no trabalho do cérebro, mas não conheciam a razão. Esta pesquisa é a primeira pista sobre o assunto.

Nela foram analisadas 329 crianças entre 2 meses e 4 anos de idade. Elas usaram, durante dois anos por até 16 horas diárias, um colete especial com gravadores digitais que captavam sua fala, a dos adultos ao seu redor e o som da TV. E o resultado foi espantoso: a cada hora de televisão assistida, 770 palavras a menos a criança ouvia. Como, segundo o coordenador da pesquisa, Dimitri A Christakis, um adulto fala em média 941 palavras por hora, isso significa que eles quase não falam quando a televisão está ligada.


Para Christakis, esse resultado pode explicar a associação entre exposição televisiva infantil e retardo no desenvolvimento da linguagem, atrasos cognitivos e até deficit de atenção, já que a fala é essencial para o desenvolvimento cerebral.

Para a equipe de Neurologia Infantil da UNESP-Botucatu, em São Paulo, o resultado da pesquisa não pode ser visto como conclusivo. "Pela técnica usada, não dá para ter certeza se a criança estava assistindo televisão ou apenas no mesmo ambiente. Também não dá para saber que tipo de programa passava. Mas um dado interessante é que com a TV ligada, assistindo ou não, os adultos falam menos e isso realmente pode interferir no desenvolvimento dela. Já está provado pela ciência que quanto mais estímulos, conversas e brincadeira um bebê tem, melhor será o seu crescimento", diz a neuropediatra Lara Cristina Antunes dos Santos. "Para o estudo ser mais completo, os especialistas deveriam realizar uma avaliação posterior do desenvolvimento de cada criança".

Fonte: Crescer Revista

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Efeitos de Vivências Traumáticas em Crianças


Como as vivências podem influenciar o desenvolvimento na infância e na adolescência Há necessidade crescente de estudos, pesquisas, conduta e intervenção psicológica e psiquiátrica para as crianças e adolescentes expostos a eventos traumáticos. Alguns estudos revelam que crianças e adolescentes têm alto risco de desenvolver diferentes problemas comportamentais, psicológicos e neurobiológicos como conseqüência das vivências traumáticas ou experiências de vida estressantes. Outros trabalhos referem que, em algumas pessoas, as experiências traumáticas podem não produzir efeitos psiquiátricos desastrosos e mesmo até alguns efeitos positivos.

Cada vez mais se analisam as variedades de eventos traumáticos precoces ou em tenra idade e sua verdadeira importância no desenvolvimento de quadros conhecidos, tais como o Transtorno de Estresse Pós-Traumático, os Transtornos de Ansiedade, Transtornos Depressivos, Transtornos Comportamentais e outros, ou mesmo nos sintomas de luto traumático das crianças. Apesar do empenho dos pesquisadores, ainda faltam estudos bem desenhados e cientificamente expressivos para análise dos sintomas e quadro clínico de transtornos emocionais conseqüentes ao estresse experimentado por crianças e adolescentes em tenra idade.

Há interesse cada vez maior sobre o impacto de eventos traumáticos em crianças e adolescentes, até por conta dos recentes desastres naturais (tufões, furacões, terremotos, tsunamis) e dos “cataclismos” criados pelo homem, através dos atos de violência (guerras, violência urbana e doméstica, etc).


A pergunta que se faz é se existiriam, e quais seriam, os fatores protetores individuais contra esses traumas, de tal forma que algumas pessoas parecem menos vulneráveis que outras em relação às vivencias estressantes.

O que se observa na clínica diária, é que algumas crianças e adolescentes, vítimas desses traumas, se adaptam e se recuperam de maneira surpreendente, apesar da experiência sofrível pela qual passaram. Constata-se através da revisão de pesquisas sobre o tema, existir uma grande variedade de respostas emocionais aos eventos traumáticos que acometem crianças e adolescentes e, assim, fica cada vez mais difícil atribuir responsabilidade exclusiva ás vivências emocionais precoces.

Uma ocasião - dando um exemplo irônico sobre a importância das fragilidades pessoais em relação àquilo que vida coloca diante de nós - lembro um paciente criado em orfanato que vivia com sintomas extremamente histéricos, sofrendo e fazendo sofrer quem dele se acercava afetivamente. A tudo ele atribuía o fato de ter vivido em orfanato. Aliás uma excelente instituição, que acabava por formar seus internos em excelentes profissionais técnicos.

Um dia, diante de tantas afirmativas suas de que “era assim e era assado” por ter sido criado em orfanato e como se aproximava a data da reunião trianual de sua turma de instituição, disse-lhe que levasse vários cartões de visitas meus para distribuir entre seus pares; se ele estava assim, problemático por ter vivido em orfanato, então, certamente, todos seus colegas de classe deveriam também estar passando pelos mesmos problemas e precisando de tratamento.

Discute-se a existência de uma personalidade mais imune às vivências traumáticas ou, por outro lado, se o apoio social e familiar seria o fator decisivo para essas crianças a se recuperarem, impedindo assim uma conseqüência mais patológica do trauma. Apesar das pesquisas que investigam alterações hormonais causadas pelo estresse em tenra idade e as conseqüências dessas alterações no desenvolvimento emocional futuro, o que se vê na clínica e na vida em geral, é que as conseqüências psicológicas das vivências parecem depender muito mais da personalidade sobre a qual agem essas vivências do que das próprias vivências em si.

Isso corresponderia a dizer que as reações dependem muito mais do agente “agredido” do que do agente “agressor”. Entre as variáveis potenciais que determinam as conseqüências dos traumas vividos por crianças e adolescentes em longo e médio prazo, devemos considerar fortemente as eventuais psicopatologias e predisposições preexistentes nessas pessoas.

Além das variáveis individuais de vulnerabilidades ao trauma, as conseqüências de vivências traumáticas sobre o psiquismo das crianças e adolescentes podem ter também um componente cultural e mesmo étnico. Como exemplo, referimos duas pesquisas. Uma delas, envolvendo uma mostra de 349 adolescentes de nove escolas dos EUA, verificou que 76% delas relataram terem sido testemunhas ou terem sido vítimas de pelo menos um evento violento nos últimos três meses. Dessas exposições à violência o que mais se associou foi o Transtorno de Estresse Pós-Traumático e a Depressão (Ozer, 2004).

A outra, de Seedat (2004), verificou que mais de 80% de uma mostra de 2.041 adolescentes quenianos relataou exposição à violência, como vítimas ou testemunhas, mas somente 5% dessa mostra desenvolveu sintomas completos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, e 8% desenvolveram sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático parcial.

Talvez a diferença entre uma criança americana e uma queniana quanto as dificuldades para a vida cotidiana imunize as mais sofridas contra os efeitos de certos eventos, ou seja, maiores dificuldades de vida poderiam fazer com que alguns eventos fossem traumáticos para uma criança americana e nem tão traumático para uma queniana. Se isso fosse verdade, então as dificuldades pragmáticas da vida, as vivências mais penosas e as frustrações, até certo ponto, contribuiriam para melhorar a adaptação futura da pessoa.

Em um estudo de109 adolescentes que sofreram abuso sexual, incluindo toques sexuais, beijos, carícias nas mamas ou nos genitais, tentativas de penetração e penetração por alguém da família ou de fora dela, 50% tiveram diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, aproximadamente 33% foram assintomáticas e o restante teve outros problemas não significativos do ponto de vista sintomático (Bal, 2004). Algumas pesquisas importantes mostram que, felizmente, e ao contrário do que pode-se pensar, não é a expressiva e maciça maioria das crianças submetidas a traumas que desenvolve transtornos emocionais significativos.

Também em adultos, parece que a expressiva maioria das pessoas expostas à vivências traumáticas não desenvolve o Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Vieira (2003) refere estudos epidemiológicos indicando que o Transtorno de Estresse Pós-Traumático afeta aproximadamente 15% a 24% das pessoas expostas a eventos traumáticos.

Isso nos leva a crer existirem outros fatores e outras variáveis influindo nas respostas emocionais aos traumas, como por exemplo, características da personalidade, como já dissemos, sensibilidade pessoal afetiva e emocional, estrutura de apoio familiar e social e, obviamente, a própria natureza do trauma.

O perfil afetivo da pessoa que reage é fundamental para a valorização da experiência vivida, a ponto dos eventos serem mais traumáticos para uns que para outros. Tem ainda o “fator depressão”, ou seja, o fato das pessoas mais depressivas terem muito mais dificuldade adaptativa diante dos estressores da vida. Na prática, a tonalidade afetiva responsável pela “valorização” do trauma seria representada pela pessoa que lamenta chorosamente as experiências vividas, dizendo sofrer “até hoje” as conseqüências “malditas” de tudo que aconteceu de terrível, e por outra pessoa que, vivendo experiências igualmente traumáticas, regozija-se por “tudo isso já ter passado” e sente-se muito bem por "ter superado essas vivências".

Juntando isso ao fato do Transtorno de Estresse Pós-Traumático ser acompanhado de taxas elevadíssimas de Depressão (comorbidade), surge a clássica pergunta; a Depressão e o Transtorno de Estresse Pós-Traumático seriam síndromes distintas ou, ao contrário, seriam aspectos diferentes de um mesmo fenômeno emocional. Se assim fosse, então o Transtorno de Estresse Pós-Traumático seria apenas um outro tipo de manifestação clínica da depressão.

Para quem se interessa pelo tema, colocando-se como termos a serem pesquisados "transtorno do estresse pós-traumático", "trauma psicológico" e "crianças e adolescentes" em dois bancos de dados relevantes da literatura científica para a medicina (MedLine, PsycInfo), encontrará no mínimo 445 artigos relevantes.

Ali vê-se que, entre uma ampla variedade de eventos traumáticos expressivos, como por exemplo a violência na comunidade, desastres naturais e aqueles criados pelo homem, abuso e maus-tratos a crianças, acidentes em estradas, exposição a doenças clínicas e lide com a morte, é muito grande o número dos casos de violência na comunidade - violência urbana - que acaba resultando em sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (Julio Fernando Peres, Antonia Nasello).

Efeitos Orgânicos do Estresse
Para entender os efeitos orgânicos do estresse, lembramos que a base de liberação hormonal está situada no cérebro (hipófise), portanto, as questões cerebrais influem diretamente no funcionamento endócrino de todo organismo. A influência hormonal do estresse atinge mesmo as glândulas situadas fora do cérebro através de um eixo que liga o Hipotálamo (núcleos da base), a Hipófise e as Supra-renais.

A secreção da maioria dos hormônios pela hipófise obedece ao estímulo de pré-hormônios elaborados nos núcleos cerebrais paraventriculares, e estes núcleos são controlados por, pelo menos, dois tipos de estímulos: o estresse e o relógio biológico, responsável por todo ritmo do organismo (sono-vigília, ciclos hormonais das mulheres).

Assim, uma das áreas mais pesquisadas quando se trata dos efeitos físicos das emoções, é no chamado eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal, ou seja, um sistema que começa no cérebro, na região do hipotálamo (fortemente influenciado pelas emoções), segue pela gandula hipófise (também localizada no assoalho do hipotálamo) e suas repercussões sobre a glândula supra-renal, situadas, como o nome diz, sobre os rins e outras manifestações alérgicas com vulnerabilidade à infecções variadas.

Efeitos Psicopatológicos dos Traumas
O maior volume de pesquisas sobre o impacto psicológico dos traumas em crianças e adolescentes, entretanto, se concentra em abusos, maus tratos e violência doméstica em geral. Em graus muito variáveis de adaptação e superação, crianças que sofreram abuso e maus-tratos correm maior risco de desenvolverem os seguintes quadros, de acordo com os seguintes trabalhos:

Fonte: mais informações no site psiqweb