sexta-feira, 7 de maio de 2010

Alcoorexia


Talvez um nome novo para um problema antigo
Assistimos nas últimas décadas a magreza ser estabelecida como estereótipo de beleza, beleza ser sinônimo de sucesso e sucesso ser uma espécie de passaporte para a vida em sociedade. As pessoas buscam desenfreadamente atingir os “valores” e padrões estéticos estabelecidos a, praticamente, qualquer preço. Os procedimentos vão desde dietas esdrúxulas, uso abusivo de substâncias prejudiciais, submissão a cirurgias agressivas, até essa “moda” de beber álcool para não comer.
As conseqüências disso tudo reflete na saúde emocional das pessoas, como é o caso do aumento vertiginoso dos transtornos alimentares, os quais já atingem 2% da população mundial, como por exemplo, a bulimia, anorexia, comer compulsivo noturno, enfim, doenças relacionadas à cultura da magreza.

A alcoorexia, alcoolrexia ou ainda ebriorexia (drunkorexia, em inglês chique) é um novo tipo de distúrbio alimentar provocado pelo culto ao corpo perfeito. Trata-se do consumo de bebidas alcoólicas com o propósito de não comer, pretendendo com isso emagrecer. A bebida alcoólica seria uma substituição das refeições.

Os riscos da alcoolrexia são maiores nas mulheres, justamente o público mais afetado pela questão do peso. Elas têm uma estrutura física diferente dos homens, com proporção corporal de gordura maior e menor quantidade de água. Isso resulta em efeitos mais graves do álcool no organismo feminino.

A incidência desse novo transtorno de comportamento, ainda não classificado pela psiquiatria, é maior entre jovens de 18 a 25 anos que querem ter sucesso entre seus pares à custa de se destacarem pela estética. Há alguns anos, os transtornos alimentares eram muito mais freqüentes em mulheres e homossexuais, entretanto, hoje em dia esse quadro vem mudando. Os homens também estão em busca da imagem determinada pela mídia.

De fato as bebidas alcoólicas podem, por efeito colateral danoso, inibir o apetite e dar a sensação de saciedade. O grande erro é acreditar que o problema está resolvido glamourosamente: além de manter a esbelteza ainda deixa a pessoa alegrinha.
As calorias estão igualmente presentes tanto no lanche, na macarronada, quanto na cerveja, uísque ou vodka. O perigo está em oferecer ao organismo uma quantidade de caloria que, diga-se de passagem, engorda, e ainda privá-lo das proteínas que, diga-se também de passagem, são importantíssimas para a saúde. Trata-se de um comportamento anômalo e doentio, uma verdadeira síndrome ligada à cultura. De quebra, esse comportamento aberrante por levar ao alcoolismo.

A gravidade do problema não deve ser avaliada de maneira isolada, porém, tal como os outros transtornos alimentares, a alcoorexia também pode se apresentar de forma múltipla, ou seja, casos de anorexia e bulimia, gravíssimos por natureza, começam a se associarem à essa nova moda de “não-ter-que-comer-graças-a-Deus”.

Tem sido na anorexia do tipo purgativo que o consumo do álcool substitutivo da comida está começando a aparecer. O anseio em querer emagrecer é mais forte do que a consciência dos malefícios dessa prática e os pacientes persistem no erro apesar de alertados.

Existem dois tipos desses transtornos alimentares. O tipo restritivo, ou verdadeira anorexia, onde a pessoa perde peso fazendo jejum, e o tipo de compulsão alimentar periódica, onde a pessoa come muito, perde o controle e depois tenta se livrar disso, seja vomitando, usando um laxante, um diurético ou um enema para evacuar, como é o caso da bulimia (veja Transtornos Alimentares em PsiqWeb).

A pretensão de tomar a alcoorexia, um misto de alcoolismo com anorexia, como uma doença ainda não foi reconhecida oficialmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Apesar disso esse tipo de comportamento patológico de incidência crescente é oportuno na medida em que nossa sociedade faz um grande apelo a duas questões simultaneamente: consumir bebidas alcoólicas e o tal “corpo perfeito”. Entre as bebidas alcoólicas preferidas pelos alcooréxicos, em primeiro lugar estão as bebidas destiladas, pois, conforme acreditam, a cerveja “incha”.

Alguns profissionais da área de Transtornos Alimentares consideram a alcoorexia como uma variação da própria anorexia nervosa, tendo em vista o grande número de mulheres com anorexia nervosa que fazem uso abusivo de álcool. Tratam-se dos casos onde essas pessoas deixam de se alimentar por vários dias à custa do consumo de álcool. Existe anorexia nervosa com uso abusivo de laxantes, de enemas, de diuréticos. Há pacientes anoréxicas que chegam a ingerir 20 comprimidos de diurético por dia. Seguindo o conceito da alcoorexia, no caso do abuso de diuréticos seria uma diurexia?

Parece sensata a idéia de que a alcoorexia seria apenas “uma variação do mesmo tema”, ou seja, apenas um novo nome para um velho comportamento. Os defensores dessa idéia acham que o hábito de beber sem se alimentar é um comportamento antigo e bastante comum, inclusive entre os homens também. O álcool tem um teor calórico alto o suficiente para inibir o apetite. Quanto às mulheres, sabe-se que esse comportamento já ocorre há muito tempo, porém, recentemente tem aumentado, além de ser mais notado.

Assim como acontece com os laxantes e diuréticos, o abuso do álcool na anorexia seria apenas mais uma manifestação da compulsividade humana aliada a transtornos alimentares. É por isso que alguns autores consideram que a alcoorexia existe apenas como um sintoma e não como uma doença em particular. O sintoma psicológico mais evidente continua sendo o descontentamento com o próprio corpo e o sintoma social mais importante é a obsessão em estar esbelto.

Realmente, sabe-se lá porque, talvez devido à ânsia da igualdade, a cada ano as mulheres estão bebendo mais, fumando mais, transando mais, tendo mais enfartes, vivendo mais sozinhas... E querem, cada vez mais, ter o corpo esbelto sugerido ou imposto pela cultura, talvez não para os homens, nem para si mesmas, mas para as outras mulheres. De fato, é a parte ruim da igualdade entre os sexos e da competitividade entre elas.

O abuso do álcool sempre existiu, tanto entre os homens, quanto entre as mulheres. Atualmente, entretanto, a diferença está nos objetivos dessa beberagem. Os homens geralmente continuam bebendo por prazer, mas as mulheres, que até há bem pouco tempo abominavam até o cheiro da bebida, atrelaram ao uso do álcool, além do glamour cultural, também a possibilidade (enganosa) de emagrecer.

O uso de bebidas alcoólicas sempre esteve presente nos quadros psiquiátricos; na esquizofrenia para aliviar o incômodo das vozes, na ansiedade para relaxar, nas fobias para dar coragem, na depressão para animar, no TOC para afastar pensamentos obsessivos e assim por diante. Muito embora os efeitos iniciais possam ser lenitivos, com o tempo, o uso continuado do álcool apenas agrava todos esses problemas. Na anorexia acontece o mesmo.

Segundo Glauber Higa Kaio, do Programa de Orientação em Assistência a Pacientes com Transtornos Alimentares (Proata) da Universidade Federal de São Paulo, 12,4% de portadores de bulimia consomem álcool, sendo a maioria deles já dependente. Entre os alcoólatras, aproximadamente 30% apresenta algum transtorno alimentar associado. Entre as mulheres dependentes de álcool ou de outras drogas, 56% delas têm algum tipo de transtorno alimentar (fonte).

Na anorexia nervosa, 50% dos pacientes se curam, 10% morrem ou continuam com o sintoma, 15% passam a sofrer com bulimia, e 15% chegam à remissão parcial dos sintomas. Segundo pesquisa de opinião, só 1% das mulheres brasileiras se acha bonita e a oferta de bebidas é grande. Juntando isso ao fato de 10% a 12% das pessoas terem predisposição para desenvolver o alcoolismo, teremos uma idéia da gravidade do problema da alcoorexia.

De qualquer forma, seja a alcoorexia uma doença em particular ou apenas um sintoma da moda, trata-se de um comportamento arriscado capaz de levar ao alcoolismo e trazer prejuízos mentais à pessoa, principalmente quando o álcool é ingerido por mulheres.

Fonte: psiqweb

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pressão alta em crianças: pediatras falham na interpretação de 50% dos casos


O Ministério da Saúde começou há poucos dias uma campanha nacional contra a hipertensão em adultos. Mas a melhor maneira de prevenir a pressão alta é cuidando disso desde a infância. Um novo estudo mostrou, infelizmente, que os pediatras falham na hora de fazer o diagnóstico - e muitos deixam de aferir a pressão durante a consulta de rotina. A pesquisa, feita pelo Centro Americano Johns Hopkins Children's, mostrou a dificuldade que os especialistas têm para reconhecer a hipertensão em crianças. Os cientistas analisaram 2.500 registros de visitas ao consultório e perceberam que os pediatras falharam na hora de medir a pressão arterial em 50% dos casos, ou seja, 1.250 crianças com chances de ter hipertensão deixaram de ser tratadas.

A Academia Americana de Pediatra exige que o médico verifique a pressão arterial em todas as consultas de rotina em crianças a partir de 3 anos. Interpretar o resultado dessa mediação é mais complicado do que em adultos. Os especialistas devem levar em conta uma tabela de referência com dados como sexo, altura e idade. A orientação da Academia Americana e da Sociedade Brasileira de Pediatria é que se a pressão for detectada alta em três consultas mensais consecutivas, a criança pode ser diagnosticada com hipertensão.

Se você tem histórico na família de obesidade, problemas renais, hipertensão ou infarto, fique mais atento à pressão do seu filho a partir dos 3 anos - sim, ele tem mais chances de desenvolver a doença. Quando detectada, os pediatras devem investigar a causa. Na maioria dos casos, o problema é renal, vascular ou endócrino. Mas só exames de urina e sangue podem confirmar. Com base no resultado, é tratado o problema e a hipertensão, que, de acordo com o Ministério da Saúde, pode ser combatida com a prática de exercícios e a redução da quantidade de sal na hora de preparar a refeição (e não esqueça de deixar o saleiro bem longe da mesa).

Fonte: CRESCER

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mutismo Seletivo

A criança que não fala com os outros.. só em casa.
Infância e Adolescência

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Crianças muito quietas, que na escola falam pouco com os colegas e têm dificuldade para responder às perguntas do professor, costumam ser classificadas de tímidas. As crianças com esse perfil podem, na verdade, sofrer de um distúrbio de fundo emocional: o mutismo seletivo. Em casa essas crianças conversam normalmente com os pais e brincam com os irmãos, entretanto, quando um adulto de fora do círculo familiar ou outra criança estranha lhes dirige a palavra, elas permanecem mudas.

As complicações e dificuldades geradas pelo mutismo seletivo são muitas. Às vezes essas crianças não conseguem nem pedir para ir ao banheiro na escola. Segundo divulgado pela revista Veja (edição de 10 de maio de 2006), até há pouco tempo pensava-se que esse distúrbio atingia uma em cada 1 000 crianças, mas recentemente, um estudo desenvolvido pela American Academy of Child and Adolescent Psychiatry mostrou que essa proporção é de sete para 1 000, o que torna o mutismo seletivo duas vezes mais freqüente do que o autismo.

No Brasil são raros estudos sobre mutismo seletivo, assim como profissionais especializados para o diagnostico precoce e tratamento deste transtorno. Trata-se de uma situação caracterizada pela recusa da criança em falar em determinados locais, principalmente locais públicos ou diante de pessoas que não seja de sua intimidade, como por exemplo, na escola, na presença de pessoas estranhas, no ambiente social.

Por definição, o mutismo seletivo é um transtorno, encontrado em crianças e caracterizado por uma contínua recusa em falar em algumas situações sociais maiores. Os primeiros relatos datam do século IX, porém existem poucas pesquisas sobre seu tratamento e etiologia. O quadro foi descrito em 1877 por Kussmaul como uma afasia voluntária em pessoas que não falavam em algumas situações, mesmo não tendo nenhum problema na comunicação oral.

Em 1934, Tramer usou o termo mutismo eletivo para crianças que somente se comunicavam em determinadas situações e com pessoas específicas, mas não falavam na maior parte das situações sociais. Com o passar do tempo, e com uma maior compreensão do quadro, o mutismo seletivo foi reconhecido como uma desordem da infância.

Os primeiros sintomas de mutismo seletivo são geralmente percebidos entre um a três anos de idade e incluem timidez, relutância para falar em algumas situações e um das pessoas estranhas. Esses sintomas ficam óbvios quando a criança é convocada a responder e/ou interagir em situações sociais, inclusive o pré-escolar, na escola elementar e nos ambientes sociais.

Epidemiologia

A prevalência encontrada é de 0,3 a 0,8 em 1.000 crianças. É mais prevalente em meninas. Pela baixa prevalência pode ser encontrado em menos de 1% da população psiquiátrica. Já o mutismo transitório, que acontece quando a criança entra na escola atinge 7 em cada mil crianças.

Etiologia

Atualmente existem muitas críticas quanto ao uso do termo “mutismo seletivo”, pois passa a falsa idéia que a criança escolhe propositalmente não falar, enquanto, na verdade, não se sente segura para se comunicar em determinados espaços e situações.

O mutismo seletivo tem causa obscura e, até o momento, parece ter origem multifatorial. Acredita-se que a influência dos fatores ambientais e situações interpessoais sejam de grande peso para o desenvolvimento do mutismo seletivo. Ele pode ser deflagrado por uma experiência negativa pela qual a criança passou - uma violência física ou verbal, ou uma grande decepção.

A genética também tem um peso importante: estatísticas mostram que muitas crianças afetadas pelo transtorno têm um parente próximo com histórico de transtornos emocionais e a patologia é mais encontrada nos filhos de pais tímidos ou distantes.

A influência do comportamento dos pais nos relacionamentos com outras pessoas, bem como suas alterações de humor podem dar à criança impressões problemáticas sobre o relacionamento humano, gerando certa ansiedade fóbica social. A própria personalidade da criança pode favorecer aparecimento do transtorno.

Em alguns casos o mutismo seletivo ocorre após algum trauma, como morte, início escolar, seqüestro, violência. Todos de alguma maneira relacionados à separação do cuidador da criança, sendo considerado um tipo de transtorno fóbico.

É importante lembrar que as crianças com mutismo seletivo após imigração para país com outra língua não pode recebe esse diagnóstico, já que o fato pode ocorrer em resposta ao isolamento social que a língua estrangeira proporciona e mesmo, principalmente, pelo choque cultural.

O DSM-IV define o mutismo seletivo levando em consideração os seguintes itens

A. Não falar em situações sociais específicas (onde há expectativa para que fale, ex. escola), apesar de falar em outras situações

B. Interfere no desempenho escolar ou ocupacional ou na comunicação social

C. Duração mínima de 1 mês (não limitado ao 1º mês de escola)

D. O fato de não falar não é devido à falta de conhecimento ou o se sentir à vontade com a língua falada na situação social (ex. criança que mora em um país e se muda para outro com cultura totalmente diferente)

E. Não é devido a um Transtorno de comunicação (ex. gagueira) e não ocorre durante uma psicose

Fonte: Veja mais informações no site PsiqueWeb

Álcool e jovens

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes é um problema que desperta preocupação no mundo todo. A discussão é de grande importância para a saúde pública, sendo necessária a atenção das autoridades, profissionais da saúde, pais e educadores

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes (12 a 17 anos) e adultos jovens (18 a 24 anos) é um sério problema que desperta grande preocupação no mundo todo. Ao contrário do que muitos acreditavam no passado, na fase de transição entre a infância e a vida adulta, o sistema nervoso central dos jovens ainda se encontra em desenvolvimento. Desta maneira, suas vias neuronais podem se tornar mais suscetíveis aos danos causados pelo álcool, levando ao comprometimento de várias funções.
Em um período repleto de mudanças físicas, psicológicas e sociais, sob os efeitos do álcool, os jovens ficam mais propensos a comportamentos de risco. Nota-se, ainda, que uma série de fatores individuais, sociais e econômicos, principalmente a família e colegas, influencia o uso de álcool pelo jovem. No Brasil, segundo dados do II Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, 2005, cerca de 54% e 79% dos jovens de 12-17 anos e de 18-24 anos, respectivamente, já haviam experimentado alguma bebida alcoólica em sua vida (uso de álcool na vida). Nestas mesmas faixas etárias, a dependência de álcool foi de 7,0% e de 19,2%, respectivamente. Essas altas prevalências ilustram a relevância do tema em nosso país.
Má influência familiar

A Secretaria da Saúde informou que adolescentes que bebem demais são influenciados pelos pais. A pesquisa foi realizada pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (CRATOD), e envolveu mais de 500 pacientes entre 12 e 17 anos, dos quais 86% são do sexo masculino. Desses, 256 afirmaram ter parentes que também fazem uso abusivo de álcool. O estudo mostra ainda que 4,36% dos entrevistados referem o álcool como droga que mais consomem. Ainda segundo a pesquisa, dos entrevistados que apontaram o álcool como droga principal, 22% começaram a beber aos 13 anos de idade e 15% aos 11
Pesquisa revela

Mais recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou uma pesquisa nacional entre estudantes da 9ª série do Ensino Fundamental (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar 2009, PeNSE), com média de idade entre 13 e 15 anos, e os resultados foram alarmantes. A taxa de uso de álcool na vida foi de 71,4%, sendo que 22% dos escolares responderam que já beberam até se embriagar.
Nos últimos 20 anos, observou-se que a exteriorização de emoções (comportamentos agressivos, impulsivos, ou descontrolados) e, em menor grau, a interiorização das mesmas (comportamentos ansiosos ou depressivos), duas características detectáveis na infância, são potenciais marcadores de uma predisposição para o uso precoce de álcool, que está associado ao histórico de consumo abusivo e de dependência de álcool. Por exemplo, foi estimado que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica, e que cada ano de atraso no início da ingestão de álcool seria capaz de gerar uma redução de 14% no risco para a dependência alcoólica. Assim, a idade de início do uso de álcool é um dos principais pontos de referência para avaliar os possíveis riscos de problemas associados. Em paralelo, vários pesquisadores sugerem que tal efeito seria decorrente do fato de que a idade de início modera a influência de outros fatores (hereditários e ambientais) sobre o uso dessa substância.
Em crianças submetidas a situações de estresse elevado, o início da ingestão de álcool é mais precoce e o risco de consumo frequente pode ser maior. Tal dinâmica pode ser observada entre as crianças em situações de rua no Brasil: constatou-se que 33% dos jovens de 9 a 11 anos de idade e 77% dos jovens de 15 a 18 anos de idade consumiam álcool.

"Estima-se que indivíduos que iniciam o consumo de álcool antes dos 16 anos de idade possuem risco 1,3 a 1,6 vezes maior de desenvolver dependência alcoólica"

Fonte: Psiquê Ciência e Vida

Filhos, como sabê-lo?

A sociedade moderna vive um lamentável conflito de valores que até mesmo a relação humana mais próxima e forte, a parental-filial, beira o abismo do egoísmo bárbaro

Jorge Forbes



“Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?”, dizia o poetinha, em seu Poema Enjoadinho. Não há relação humana mais fundamental que de filhos com pais e vice-versa. Fundamental e ambivalente: um filho ao mesmo tempo em que representa a continuidade, a prolongação da mãe, ou do pai, é também a sua diferença e o seu limite. É, paradoxalmente, a extrema proximidade e semelhança quem ao mesmo tempo melhor revela a diferença entre as pessoas, o que, para muitos, é insuportável.
Não raro se escuta de um pai: – “Onde está esse menino, ah, eu mato quando eu encontrá-lo, isso não se faz...”. E de um filho: – “Pô, meu, não aguento mais essa velha, vive cansada, perdida, se esquecendo de morrer”.
São comentários do dia-a-dia que não chocam ninguém, uma vez que todos se identificam com o desespero de uma pessoa ao notar que mesmo na relação humana mais próxima há sempre uma distância intransponível.

A educação é a forma mais clássica de diminuir a distância entre pais e filhos, daí a expressão: – “Se comporta de uma maneira que nem parece meu filho”; o que, pelo contrário, equivale a dizer que comportar-se como os pais, ou melhor que eles, nos critérios familiares, faz o filho ser mais reconhecido como próprio. E sabemos que nem sempre a disciplina educativa é dócil: castigos de gama variável são comuns
– de ambas as partes, há que se dizer
– dentro de um limite que não está fixado em lugar nenhum, mas é compartido em um sentimento comum de pertinência, que poderia ser aproximadamente traduzido em uma máxima: jamais a vertente agressiva pode suplantar a vertente amorosa, quando isso ocorre surge a repugnância.

A quebra do pacto social

Recentemente a imprensa perguntou e até mesmo criticou, chamando de “circo”, a reação popular de euforia expressa em gritos de vitória acompanhados de rojões, assim que foi promulgada a sentença que considerou culpado o casal Nardoni, pela morte da menina Isabella. No entanto, é bem compreensível essa manifestação.
Ocorre que a sociedade humana é a única que não sobrevive pelos instintos naturais, c tos como ocorre em todas as outras classes de animais. É vital à nossa espécie o pacto social; este, quando rompido, põe em risco a própria espécie. Chamamos de crime hediondo esse tipo de comportamento que nos repugna, como já dito, por agredir a todos. O pacto social é um pacto surdo que responde mais ao sentimento que à razão e, entre todos os crimes hediondos, o pior é o assassinato de um filho por um dos pais, ou o seu contrário. Se esse ponto do pacto não for respeitado, nada mais o será, daí os fogos e o júbilo exaltado. Devemos criticar quem festeja a vitória da humanidade sobre a psicopatia, o narcisismo ensandecido, o egoísmo bárbaro?



“Se tirarmos a responsabilidade de cada um frente às suas emoções está aberto o caminho para o infortúnio geral”

E por que pais podem chegar a matar filhos e filhos, a matar pais? Há mais de uma razão, comento as mais freqüentes. O princípio geral é o que já foi referido, a saber, que não há vínculo mais forte que o parental- filial, o que faz com que aqueles que são os melhores alvos de carinho, são também os alvos preferidos das agressões. Falemos de três desses motivos. Primeiro, os estados ditos crepusculares: é como se o cérebro entrasse em curto-circuito levando a pessoa a cometer uma atrocidade de uma forma impulsiva, podendo mesmo ter dificuldade de lembrança, logo em seguida. Segundo, os casos de perversão, quando o outro, o filho ou o pai, é visto como puro objeto de manipulação interesseira, não valendo sua vida mais que os vinténs de satisfação que sua morte pode trazer ao assassino, como, por exemplo, provar o seu suposto amor para uma parceira que pede o sacrifício de um filho como prova de sentimento por ela. Terceiro, alguns casos de psicose, aonde há falha grave nos processos de individuação, fazendo com que a presença de um filho possa causar uma crise de identidade em um dos pais, do gênero que se expressa na fórmula: se ele sou eu, então quem sou eu, eu não existo? Se ele sou eu, ele tem de deixar de existir para que eu exista.

O fato de podermos mal falando “entender” esses quadros patológicos, não quer dizer de nenhuma maneira que por isso os justifiquemos: compreender, no caso, não é justificar. Se tirarmos a responsabilidade de cada um frente às suas emoções está aberto o caminho para o infortúnio geral.

Fonte: Psique Ciência e Vida / Jorge Forbes é psicanalista e médico-psiquiatra. É Analista Membro da Escola Brasileira de Psicanálise (A.M.E.), Preside o IPLA – Instituto da Psicanálise Lacaniana e dirige a Clínica de Psicanálise do Centro do Genoma Humano da USP. www.jorgeforbes.com.br

terça-feira, 4 de maio de 2010

A função dos pais é ajudar o filho a se constituir como pessoa


Para uns, os filhos fazem tudo certo, para outros, fazem tudo errado.
Ambas atitudes colaboram pouco para o desenvolvimento da criança.
O nascimento de uma criança representa a concretização de um milagre. Por mais que se saiba de todo o funcionamento biológico da reprodução, parece incrível que aquele ser se desenvolveu no ventre de sua mãe.

Milagres são obras de uma divindade, o que nos remete à ideia de perfeição. É o que muitos pais pensam ou esperam de seus filhos – que sejam perfeitos.

Entre os que desejam isso, existem pais que não conseguem reconhecer nada do que os filhos fazem. Qualquer coisa poderia ser melhor, mesmo que tenham feito algo muito bom.

Boicotam seus filhos naquilo que são ou fazem. Consideram que admitir seus pontos positivos, poderia fazer com que não se esforçassem mais. Mas com tanto esforço e poucos resultados, há grandes chances de seus filhos se tornarem pessoas inseguras, exigentes e frustradas consigo mesmas.

Há aqueles, no entanto, cujos filhos são a tradução dos seres mais primorosos que existem. Tudo o que fazem é ótimo. Se o filho apresenta algum comportamento diferente, no máximo, acham graça. Se algo lhes acontece, é culpa do mundo, eles foram apenas vítimas. Se vão mal na escola, é ela que não é boa. Só arrumam desculpas para aquilo que dizem, o contrário do que pensam.

Ambas atitudes colaboram pouco para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças, revelando a cegueira dos pais, que os impede de ver os verdadeiros filhos que têm. Enquanto um enxerga de maneira deformada, o outro apenas vê aquilo que quer, e pode.

Elogios

Quando uma pessoa nunca é reconhecida por aquilo que faz, por melhor que seja o produto, ela deixa de ter um parâmetro para avaliar o resultado de suas ações. Isso se dá inicialmente através do outro. A medida que cresce, essa capacidade de dar um valor para as coisas é internalizada. O outro não é mais tão necessário (sempre precisamos de elogios) para termos certeza de nossas ações.

Isso envolve o desenvolvimento da capacidade de aceitar seus próprios erros ou resultados não muito bons. Mesmo que eles existam, há espaço para o triunfo e para a satisfação.

Por sua vez, aqueles que não conseguem ver nada além da divindade que é seu filho, provavelmente negam seu lado humano e real. Esquecem de circunscrevê-lo, impedindo-o de ter a noção de quem realmente é. Algo que provavelmente seus pais também não sabem, apenas o imaginam de acordo com seus desejos.

Assim, ficam impedidos de ouvirem os filhos em suas necessidades. Se uma criança vai mal na escola, realmente pode ser uma falta de adaptação àquele tipo de instituição. Porém, outras possibilidades têm que ser consideradas, como uma dificuldade de aprendizagem, por exemplo. Algo que um pai só poderá se dar conta se não ficar negando a humanidade de seu descendente e tudo o que a envolve. Afinal, uma divindade jamais teria problemas para aprender.

Um filho tem que ser olhado como ele realmente é. No que é bom e em que precisa de ajuda. A função de um pai e de uma mãe é ajudá-lo a se constituir como pessoa – real e humana, para que ele possa ser e se reconhecer.

Fonte: Ana Cássia Maturano - Especial para o G1, em São Paulo

domingo, 2 de maio de 2010

Amigo imaginário


Seu filho bate papo com ele, guarda lugar na mesa e até briga, mas você não o vê. Quem é?
O amigo imaginário, também conhecido como invisível ou secreto, é um velho conhecido do universo infantil. Tanto que serviu de inspiração para uma série de desenhos animados, como Mansão Foster para Amigos Imaginários. Os personagens da telinha não são novidade para muitos pais, que estão acostumados a encontrar o filho conversando sozinho. E, quando perguntam com quem ele está falando, a resposta é objetiva: "Com meu amigo, é claro!".

Um estudo realizado pela Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, mostrou que 30% das crianças na idade pré-escolar, de 3 a 7 anos, têm companheiros criados pela imaginação. Acredita-se que essa fase é natural e faz parte do desenvolvimento infantil. "Esses seres funcionam como muletas para elas entrarem no mundo da realidade. Algumas criam e dão características que gostariam de ter. Outras transferem para o amigo os medos que não conseguem enfrentar", explica a psicopedagoga Maria Irene Maluf, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Compreenda

A amizade fictícia surge sempre de uma necessidade interior das crianças. Elas dão vida a personagens que ganham forma e nome. São inventados para suprir, às vezes, uma falha emocional que pode ser precedida por um sentimento de falta ou insegurança.

Mas é o seu filho que deve escolher o momento de despedida desses amigos. Maria Irene recomenda que os pais não interrompam o processo de criação dos pequenos. Ao contrário, o amigo imaginário pode ser uma resposta para certas atitudes da criança. "Ouvindo as conversas do filho com o amigo, é possível descobrir quais são seus medos, suas vontades", explica a psicopedagoga Maria Irene Maluf. Apenas preste atenção na personalidade desse companheiro e quanto ele influencia o comportamento do seu filho. Se for saudável, não há problemas. Do contrário, é melhor procurar a orientação de um psicólogo. O mesmo vale se a criança, depois dos 7 anos, não abandonou o amigo. "É um alerta de que ela pode estar substituindo a realidade pelo imaginário", explica Maria Irene. Ela também diz que é importante ficar atenta em como está o desenvolvimento da criança fora do círculo familiar, saber se tem amigos, se tem problemas para se relacionar.

Enquanto o amigo imaginário fizer bem para seu filho, deixe que eles se divirtam. "A ausência de imaginação deve, sim, preocupar. O excesso, não", lembra a psicopedagoga.

Fonte: CRESCER REVISTA